Economia

O erro de R$ 2,4 mi que atrapalha a reestruturação do São Paulo para 2027

Dorival Júnior e Rafinha em coletiva no São Paulo, com gráficos de custos de R$ 2,4 milhões mensais
A comissão técnica custosa que desafia a reestruturação financeira do São Paulo para 2027.

O São Paulo gasta cerca de R$ 2,4 milhões mensais com uma comissão técnica que não entrega o perfil de gestão exigido pelo momento do clube. A conta não fecha quando o objetivo declarado para os próximos três anos é reestruturação financeira, elenco enxuto e uso intensivo da base.

Dois nomes centram o debate: o treinador Dorival Júnior e o executivo de futebol Rafinha. Ambos têm currículo vitorioso, mas os indicadores atuais sugerem desalinhamento com a estratégia que a próxima gestão — seja qual for o presidente eleito — precisará executar.

O custo invisível da comissão técnica

Fontes internas indicam que a folha da comissão liderada por Dorival oscila entre R$ 2,2 milhões e R$ 2,4 milhões por mês. São valores de elite, compatíveis com clubes que disputam títulos continentais com elencos prontos. O São Paulo de 2024, contudo, vive realidade distinta: receitas pressionadas, dívida a equacionar e necessidade de gerar ativos vendáveis.

Para efeito de comparação, o investimento mensal na comissão técnica equivale ao salário anual de três a quatro promessas da base promovidas ao profissional. Cada mês de manutenção dessa estrutura consome recursos que poderiam financiar a transição de garotos para o time principal — o motor de geração de valor do clube nos próximos anos.

Decisões de campo que contradizem o discurso

O diagnóstico não se baseia apenas em planilhas. As escolhas táticas recentes revelam padrão: em momentos de pressão, o treinador recorre a veteranos de alto custo e teto de valorização nulo, em vez de testar ativos da base em jogos de alta visibilidade.

  • Zaga: Osório e Isac, avaliados internamente como alto potencial, perdem espaço para Rafael Toloi (32 anos, salário elevado, sem margem de revenda).
  • Ataque: Ferreirinha e Victor Sá consomem minutos que poderiam acelerar o desenvolvimento de Lucca, atacante de 20 anos com perfil de ativo futuro.
  • Lateral-direita: Igor Felisberto, titular da seleção sub-20, segue sem sequência. Aurélio Buta (lesionado) e Pedro Lima (emprestado pelo Wolverhampton) foram preferidos.

Cada minuto jogado por um veterano sem perspectiva de venda é um minuto a menos de vitrine para um ativo que o clube precisa valorizar.

A gestão de reforços e o perfil do elenco

Desde que assumiu como principal executivo, Rafinha comandou chegadas que reforçam a contradição. Quatro contratações — Buta, Domingos Duarte, Victor Sá e Iago — têm entre 29 e 32 anos, salários acima da média da base e ocupam vagas que seriam de garotos em fase de afirmação.

O empréstimo de Pedro Lima (21 anos, Wolverhampton) é o único movimento alinhado à lógica de “contratar menos, contratar melhor, apostar na base”. Isolado, porém, não compensa o volume de apostas em jogadores no fim da curva de valorização.

O que dizem os candidatos à presidência

Em entrevista ao UOL, Marcelo Portugal Gouvêa (oposição) afirmou que, se eleito, buscará treinador adaptado à realidade financeira, disposto a trabalhar com a base e a encontrar soluções no elenco atual. Pessoas ligadas a Vinicius de Medeiros (situação) sinalizam que a reorganização financeira também será prioridade.

Ambos os caminhos apontam para um perfil de comando técnico e executivo distinto do atual. A transição para 2027 exigirá decisões duras: saída de veteranos de alto custo, redução da folha de comissão técnica e aposta efetiva — não retórica — em garotos de Cotia.

O que observar nos próximos meses

Três indicadores dirão se o clube inicia a virada de chave ainda em 2024 ou posterga o ajuste para 2025: (1) renovação ou rescisão de contratos de veteranos sem minutagem relevante; (2) minutos acumulados por sub-23 em jogos oficiais; (3) custo total da comissão técnica como percentual da folha de futebol. Se a proporção não cair, a reestruturação prometida continuará no papel — e a conta, no fim, será paga com venda forçada de ativos ou novo endividamento.