Uma conferência em Brasília expôs a estratégia que juristas, comunicadoras e influenciadoras estão usando para furar o bloqueio masculino nos tribunais: agir em rede. O evento “Mulheres que movem a Justiça” termina sexta-feira (6) e revela um cenário onde 40% dos cargos vitalícios do Judiciário serão abertos na próxima década.
O número não é projeção otimista — é cálculo institucional. A presidente da EBC, Antonia Pellegrino, trouxe o dado à mesa de abertura: quase metade das cadeiras vitalícias vagará até 2036. A pergunta que fica é quem vai ocupá-las.
O “lobby do batom” ensinou o manual há 35 anos
Pellegrino resgatou a articulação suprapartidária de deputadas e senadoras na Constituinte de 1987-88. Poucas mulheres, organizadas em rede, garantiram direitos que vigoram até hoje. “Atuar em rede, para quem é mulher, é estratégia de sobrevivência”, definiu.
A lógica se repete agora contra a desinformação misógina. Grupos radicais operam coordenadamente; a resposta, segundo a dirigente, precisa ter a mesma arquitetura. A comunicação pública, alvo frequente de governos extremistas, depende dessa blindagem coletiva.
Informação sem maquiagem: o recado das influenciadoras jurídicas
Sara Gabriela, advogada por trás da página “Seja a princesa que salva a si mesma”, nasceu do atendimento a vítimas de violência em Goiás. A partir de 2019, entendeu que a mudança cultural exige dados duros, não discursos suavizados. “A informação não deve ser suavizada”, cravou.
Miriane Ferreira, com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, ataca outro flanco: o desconhecimento do patrimônio conjugal. Mulheres que dedicaram a vida ao trabalho doméstico e aos filhos abrem mão de direitos na partilha por não saberem que a lei as ampara. Ela ensina, em vídeos curtos, o que a legislação garante no divórcio.
- Direito à meação mesmo sem renda formal externa
- Reconhecimento da contribuição indireta ao patrimônio
- Pensão alimentícia quando houver disparidade econômica
“As mulheres precisam dessa solidariedade uma das outras para mostrar o poder que têm. Nós somos muito desacreditadas”, resumiu Miriane.
O “massacre do Judiciário” contra quem denuncia
Mayra Cotta, criadora da série “Afiadas” (TV Brasil), trouxe o contraponto duro: “As mulheres estão denunciando mais, mas estão sendo massacradas pelo Judiciário”. Não basta ter mais juízas; falta conscientização sobre como denúncias são recebidas. “Tem juízes passando pano para assediadores e abusadores todos os dias”, lamentou.
A série acompanha manicures de Brasília que registram em vídeo conversas sobre política, filhos, violência. A ficção expõe o cotidiano que o Direito ainda ignora.
Voto, tela e racismo estrutural: as outras frentes
Thayse Xavier, fundadora da plataforma “Elas trabalham”, usou o último mês para disparar mensagens permanentes: mulheres devem votar em mulheres. “Mulheres fora do espaço de poder devem apoiar mulheres que estão nesses lugares.”
Fernanda Amim, diretora do documentário “Reconhecidos”, fechou o painel apontando o racismo institucional no sistema de justiça criminal — especificamente nas falhas do reconhecimento fotográfico de suspeitos. A lente do cinema revela o que o processo oculta.
O que observar daqui para frente
As quatro frentes — ocupação de cargos vitalícios, combate coordenado à desinformação, educação jurídica de massa e pressão por acolhimento humano nas denúncias — formam um eixo único. Os 40% de vagas até 2036 são o prazo. A rede, o método. Quem articular primeiro, leva.
