O presidente Luiz Inácio Lula da Silva colocou a previsibilidade econômica no centro da estratégia para transformar o Brasil em potência de minerais críticos. Em reunião do Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, em 5 de novembro, ele foi direto: sem responsabilidade fiscal e segurança jurídica, o capital internacional não vem.
A fala ocorre dias após a reeleição para o quarto mandato, em 25 de outubro, com mais de 64 milhões de votos. O desafio agora é converter o capital político em investimento real.
O recado que o mercado esperava ouvir
“Ninguém vai fazer investimento numa economia desordenada”, declarou Lula. A frase resume a ponte que o governo tenta construir entre o discurso desenvolvimentista e as exigências de fundos globais. O presidente rejeitou a ideia de que o Estado deva controlar toda a cadeia — da extração à industrialização — de terras raras e minerais estratégicos.
Em vez disso, propôs parcerias. “Precisamos aprender. Precisamos construir com outros países que queiram participar conosco”, afirmou. A sinalização mira diretamente as restrições de capital de risco para projetos de longo maturação no setor mineral.
Números que dimensionam a aposta
- 129 mil empregos diretos no setor de minerais críticos e estratégicos, segundo dados oficiais
- Projetos de lítio, nióbio, terras raras e grafite em estágio avançado de licenciamento
- Dólar flertando com R$ 5,49 no mesmo dia, reflexo de instabilidade externa e cautela fiscal interna
O setor já responde por fatia relevante da balança comercial, mas o governo quer saltar de exportador de commodity para player de cadeias de valor — baterias, ímãs permanentes, semicondutores.
O equilíbrio entre urnas e balanços
Lula fez questão de vincular a agenda econômica ao resultado das urnas. “Quem ganhou essa eleição foi o povo brasileiro que acordou para não permitir que o país caísse num abismo de incerteza”, disse, citando idosos que enfrentaram filas e jovens mobilizados nas ruas e redes.
A retórica serve a dois mestres: mantém a base social mobilizada e sinaliza aos agentes econômicos que há legitimidade política para tocar reformas impopulares, se necessárias.
O que vem a seguir: fiscal, COP31 e o teste de credibilidade
O próximo passo concreto já tem data e protagonista. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, deve discutir medidas fiscais com o presidente após a COP31. A conferência climática, no Brasil, funciona como vitrine para atrair financiamento verde — justamente o perfil de capital que projetos de minerais críticos demandam.
Mas o cronômetro corre. Licenças ambientais, infraestrutura logística e marco regulatório da mineração (ainda em debate no Congresso) são gargalos que não se resolvem só com discursos.
O que observar daqui para frente
Três variáveis dirão se a “economia arrumada” sai do papel: (1) a velocidade de aprovação do novo marco legal da mineração; (2) a consistência do arcabouço fiscal nos próximos relatórios bimestrais; (3) a capacidade de transformar memorandos de entendimento assinados na COP31 em contratos de offtake e equity. Para o investidor, o sinal verde virá quando o risco regulatório cair abaixo do prêmio pelo ativo mineral. Até lá, o Brasil segue no radar — mas na fila de espera.
