Economia

Cade trava compra da Medley pela EMS: quais marcas saem do jogo?

Logotipo do Cade com balanças de justiça sobre caixas de Clomid e Naratriptana, simbolizando bloqueio da fusão EMS-Medley
Cade condiciona compra da Medley pela EMS à venda de Clomid e Naratriptana para preservar concorrência.

A área técnica do Cade condicionou a aquisição da Medley pela EMS à venda de ativos específicos para manter a concorrência viva. O negócio, estimado em R$ 3,2 bilhões, agora depende do tribunal da autarquia para sair do papel. A decisão frustra o cronograma das empresas, que esperavam fechar a transação ainda em 2024.

O “preço” da aprovação: Clomid e Naratriptana

Para dar o aval, a Superintendência-Geral exigiu desinvestimentos em dois princípios ativos sensíveis. O Clomid (citrato de clomifeno), referência em tratamentos de fertilidade, e a Naratriptana, amplamente usada no alívio de crises de enxaqueca, não podem seguir sob o mesmo guarda-chuva corporativo.

O acordo sigiloso prevê caminhos distintos para cada um: um será transferido integralmente a um terceiro comprador; o outro manterá a fabricação por terceiros (terceirização) como condição para permanecer no portfólio da nova gigante. A medida visa evitar que a fusão elimine alternativas no balcão da farmácia.

Por que esses dois medicamentos importam?

A análise da autarquia identificou que, nesses mercados específicos, a união dos portfólios criaria poder de mercado excessivo. O risco concreto é a redução da pressão competitiva, abrindo espaço para reajustes de preço acima da inflação ou dificuldade de entrada para novos genéricos.

No restante dos 120 mercados de produtos analisados — somando 253 medicamentos, majoritariamente genéricos — o parecer não viu riscos relevantes. A justificativa técnica aponta para a pulverização da indústria: há dezenas de fabricantes, capacidade ociosa alta e consumidores que trocam de marca pelo preço.

O tamanho do tabuleiro: EMS e Medley em números

A operação desenha um colosso nacional. A EMS, de Carlos Sanchez, fatura cerca de R$ 10,9 bilhões anuais com 12 mil funcionários. A Medley, ex-ativo da francesa Sanofi, adiciona R$ 1,5 bilhão de receita e duas fábricas em Campinas (SP). Juntas, passam a disputar palmo a palmo com Eurofarma, Hypera, Aché, Cimed e Neo Química.

  • Valor da operação: ~R$ 3,2 bilhões
  • Medicamentos envolvidos: 253 registros
  • Mercados afetados: 120 categorias de produtos
  • Faturamento combinado (2025): ~R$ 12,4 bilhões

O relógio do tribunal e o recesso

O caso subiu para o tribunal administrativo do Cade, onde conselheiros têm a palavra final. O calendário, porém, joga contra a celeridade. Restam poucas sessões plenárias antes do recesso de fim de ano, o que pode empurrar a decisão definitiva para 2025.

Em setembro, a própria área técnica já havia classificado a operação como “complexa”, negando o aval sumário que as empresas desejavam. O parecer final, publicado na quarta-feira (4), manteve a visão de que a concentração é inofensiva na maior parte do setor, mas inegociável nos dois nichos apontados.

O que observar daqui para frente

Três movimentos definem o desfecho: a homologação do acordo de desinvestimento pelo tribunal, a identificação do comprador para a marca que será vendida e o cronograma de execução da transferência de tecnologia ou contratos de fabricação. Para o mercado, a sinalização é clara: o Cade tolera escala, mas veta domínio em moléculas com pouca concorrência real. Quem opera no varejo ou na distribuição deve monitorar a reprecificação desses SKUs assim que a posse mudar de mãos.