O superávit comercial brasileiro saltou para US$ 9,3 bilhões apenas em outubro — alta de 39,4% sobre 2025. No acumulado de janeiro a outubro, o saldo positivo já beira US$ 71 bilhões, 34% acima do ano anterior.
Mas o número que realmente chama atenção está na lista de compradores: treze dos quatorze principais destinos das exportações brasileiras aumentaram as aquisições em 2026. A exceção única revela muito sobre os riscos que ainda pairam sobre o comércio exterior.
Soja, petróleo e o calendário que joga a favor
A soja continua sendo o carro-chefe. A China abocanha quase 70% do grão embarcado pelo Brasil, mas a vantagem competitiva vai além da demanda asiática. Como a safra brasileira entra no mercado em janela distinta da americana — principal concorrente —, o calendário vira aliado natural dos exportadores.
Deise Cristina Bissoni, diretora do Grupo Botuverá, resume: a China faz a diferença, porém outros mercados vêm ampliando pedidos de grãos, carnes e commodities em geral. A janela de oportunidade, segundo ela, está aberta “mundo afora”.
Índia dobra a aposta; Europa acelera com acordo Mercosul-UE
O destaque numérico vai para a Índia: o valor importado quase dobrou, puxado por contratos de petróleo. Holanda, Itália e Turquia também ampliaram compras expressivas, combinando petróleo e soja na pauta.
Do lado europeu, o acordo Mercosul-União Europeia — vigente há seis meses — já reflete nos números. Allan Gallo, professor de Direito Internacional e Economia da Mackenzie, observa que as exportações para o bloco europeu “estão crescendo bastante em função do acordo”.
- Exportações totais (jan-out): US$ 321 bilhões (+11% vs 2025)
- Superávit acumulado: US$ 71 bilhões (+34%)
- Maior comprador: China (~70% da soja)
- Crescimento explosivo: Índia (quase 100% a mais em valor)
- Única queda entre top 14: Argentina (-17%)
O sinal de alerta vem do vizinho sul
A Argentina foi o único parceiro do top 14 a reduzir importações — queda de 17%. Especialistas atribuem o recuo às medidas de ajuste econômico que erosionaram o poder de compra local. Miriam Vale, professora de Negócios Internacionais da Fecap, adverte: se a população argentina perde capacidade de consumo, o Brasil tende a enfrentar dificuldades para escoar produtos naquele mercado.
O cenário expõe a vulnerabilidade de depender de um único vizinho para escoar parte relevante da produção industrial e agrícola.
Diversificação geográfica sim, de produtos nem tanto
Analistas concordam: o Brasil está vendendo mais para mais países, o que reduz risco de concentração geográfica. Contudo, a pauta permanece ancorada em commodities — matérias-primas básicas cujos preços oscilam conforme choques externos, como a guerra no Irã que impulsionou o petróleo.
Para Gallo, o desafio estrutural não é deixar de vender o que já se vende, mas adicionar itens com maior valor agregado ao portfólio exportador. A equação ideal: manter a base de commodities enquanto expande a fatia de manufaturados e produtos tecnológicos.
O que observar nos próximos trimestres
Três variáveis vão ditar o ritmo: a velocidade de implementação plena do acordo com a UE, a trajetória da economia argentina e a capacidade da indústria brasileira de escalar produtos de maior elaboração. Quem acompanha o comércio exterior deve monitorar, além dos volumes, a composição da pauta — é ali que se mede, de fato, a sofisticação da inserção internacional do país.
