A Califórnia deve rejeitar o primeiro imposto sobre grandes fortunas dos EUA, mas a avalanche de vitórias democratas nas urnas sinaliza que a taxação de bilionários continuará no centro do debate político nacional.
A Proposição 40, que previa alíquota de 5% sobre patrimônios acima de US$ 1 bilhão, caminhava para a derrota com 55% dos votos contrários até a quarta-feira (4). O resultado final, porém, pode levar semanas devido ao volume de cédulas por correio.
O preço da vitória dos mega-doadores
Para enterrar a iniciativa, um punhado de bilionários desembolsou mais de US$ 300 milhões (cerca de R$ 1,64 bilhão). A lista inclui Sergey Brin (cofundador do Google), Eric Schmidt (ex-CEO do Google), Vinod Khosla e Michael Moritz — cada um com doações na casa dos milhões.
O governador Gavin Newsom e o eleito Xavier Becerra também fizeram campanha contra a medida. Argumentaram que o imposto espantaria inovação e capital do Vale do Silício, além de não constituir política de longo prazo.
O efeito rebote nas urnas
Enquanto os super-ricos celebravam na Califórnia, democratas varreram disputas pelo país usando a rejeição à influência bilionária como combustível. Três casos ilustram a dinâmica:
- Michigan: Abdul El-Sayed venceu para o Senado estadual com a taxação de fortunas como bandeira central.
- Texas: James Talarico conquistou a primeira cadeira democrata no Senado em uma geração, derrotando candidato bancado por Elon Musk com mais de US$ 150 milhões (R$ 820 milhões).
- Nível nacional: O partido transformou a aliança entre bilionários e Trump em passivo eleitoral, explorando o fosso entre super-ricos e famílias pressionadas pelo custo de vida.
Por que a proposta caiu no estado mais progressista
Especialistas apontam falhas estratégicas do SEIU-UHW, sindicato da saúde que bancou a campanha. A medida destinava toda a arrecadação exclusivamente à saúde, alienando o poderoso sindicato dos professores.
Outro fator: o medo do “efeito cascata”. Eleitores de classe média, como Darran Matthews, 56, de Glendale, votaram contra temendo que o imposto não parasse nos bilionários. “Parece bom, mas a oposição convenceu de que a coisa não pararia por aí”, disse ele.
O que dizem os acadêmicos
Para David Crane, de Stanford, “as pessoas detestam os bilionários sem saber exatamente o motivo. Apenas acham que deveriam ser taxados”. Ele prevê propostas semelhantes em outros estados.
Joseph Stiglitz, Nobel de Economia, vai além: é “apenas uma questão de tempo” até uma iniciativa ganhar tração. O historiador da Columbia lembra que em 1895 a Suprema Corte derrubou o imposto de renda federal; 18 anos depois, ele virou emenda constitucional.
O que observar daqui para frente
A derrota californiana não encerra o ciclo — ela o inaugura. Com democratas fortalecidos em legislaturas estaduais e no Congresso, a pressão por reforma tributária progressiva deve migrar do plebiscito para o processo legislativo.
Fique atento a três movimentos: novas propostas estaduais (especialmente em Nova York, Washington e Illinois), projetos federais de imposto mínimo sobre patrimônio não realizado e a reação dos mega-doadores, que já sinalizam disposição para gastar cifras ainda maiores na defesa de seus interesses. O tabuleiro mudou; a partida continua.
