A Polícia Civil do Distrito Federal desarticulou, nesta quinta-feira (5), um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou aproximadamente R$ 1 bilhão por meio de apostas ilegais. A investigação revela que uma fintech paulista, regularmente autorizada pelo Banco Central a operar como sociedade de crédito direto, foi peça central na engenharia financeira do grupo.
O detalhe que intriga investigadores: pagamentos via Pix eram roteirizados para empresas de fachada sem qualquer ligação com o setor de jogos, como uma clínica de assistência psicossocial e uma loja de tarô. Ambas compartilhavam endereço em Sobradinho (DF).
A anatomia das empresas de fachada
As diligências mapearam a criação de dezenas de pessoas jurídicas entre fevereiro e julho de 2024 — nota-se uma concentração atípica de registros em curto intervalo. Os capitais sociais eram idênticos e os endereços, restritos a Sobradinho, Sobradinho II e Ceilândia.
Em um único lote em Ceilândia, dez empresas distintas utilizavam o mesmo número de telefone. Nos endereços físicos, a polícia encontrou imóveis vazios e comércios em funcionamento que não condiziam com a atividade declarada.
- 64 pessoas físicas e 120 pessoas jurídicas tiveram ativos bloqueados.
- O valor total indisponibilizado atinge R$ 3,483 bilhões.
- Bens em instituições supervisionadas pelo BC e pela CVM foram congelados.
O papel da fintech e a rota dos criptoativos
Segundo a apuração, a instituição financeira recebia os recursos dos apostadores e os distribuía para a rede de laranjas. A partir daí, o dinheiro era concentrado, redistribuído entre integrantes da organização e, em parte, convertido em criptoativos para dificultar o rastreamento.
A operação, batizada de Azzardo (termo italiano para “jogo de azar”), contou com o apoio da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda. Mobilizou cerca de 200 policiais em seis unidades da federação: DF, São Paulo, Goiás, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte.
Mandados na Faria Lima e no Entorno do DF
Em São Paulo, as buscas atingiram endereços de alto padrão na avenida Brigadeiro Faria Lima, no polo da Vila Olímpia e em Pinheiros. Em Goiás, as diligências ocorreram em Goiânia, Planaltina e Valparaíso de Goiás — região limítrofe ao Distrito Federal.
Os agentes apreenderam documentos, dispositivos eletrônicos, mídias e chaves de acesso a carteiras de criptoativos. O objetivo é identificar os donos das plataformas, seguir o rastro do dinheiro e dimensionar eventuais prejuízos aos apostadores.
Tipificações penais e penas máximas
Os investigados respondem por um rol de crimes que inclui:
- Exploração de loteria não autorizada;
- Estelionato mediante fraude eletrônica;
- Lavagem de dinheiro;
- Falsidade ideológica;
- Organização criminosa.
As penas privativas de liberdade variam de 11 anos e seis meses a 31 anos. Caso a falsidade ideológica envolva documento público, o teto sobe para 33 anos de reclusão.
O que observar daqui para frente
O caso expõe a vulnerabilidade de instituições reguladas — mesmo as autorizadas pelo Banco Central — a serem cooptadas por esquemas de “banking as a service” para lavagem. A convergência entre apostas não reguladas, fintechs e criptoativos cria uma camada de opacidade que desafia os mecanismos tradicionais de compliance e monitoramento de transações suspeitas (STR).
Para o mercado, o sinal de alerta está na velocidade de constituição das empresas de fachada e na capilaridade geográfica da operação. Acompanhar os desdobramentos do inquérito e eventuais sanções administrativas ao BC será essencial para entender como o regulador pretende endereçar a responsabilidade de intermediários financeiros em esquemas de layering via Pix e ativos virtuais.
