Pesquisadores chineses patentearam o genoma de uma flor da Mata Atlântica sem jamais pisar no Brasil. O país assiste à fuga do valor econômico de sua biodiversidade para o exterior. A conta pode chegar na forma de royalties sobre o próprio patrimônio nacional.
O novo extrativismo: dados genéticos substituem navios
Durante séculos, impérios precisaram transportar mudas e sementes fisicamente. Hoje, basta acessar bancos públicos como o GenBank. Sequências digitais de DNA e RNA circulam livres de fronteiras, permitindo que laboratórios na Ásia, Europa ou EUA identifiquem genes, desenvolvam enzimas industriais e criem fármacos patenteáveis.
A matéria-prima não sai do território, mas o valor econômico evapora. O que era exercício de poder imperial virou fluxo de dados instantâneo.
O abismo das patentes: números que assustam
Um estudo de 2023 publicado na World Patent Information expõe a assimetria: 92% das inovações patenteadas envolvendo espécies da flora da Mata Atlântica foram depositadas no exterior. Os líderes são China, Japão, Estados Unidos e Coreia do Sul.
Ao Brasil, coube a abundância biológica. Aos demais, a capacidade de transformar informação genética em propriedade intelectual e negócios de alto valor agregado.
O fundo que prometia bilhões e arrecadou centavos
A diplomacia tentou responder. Em 2024, na COP16 de Cali, nasceu o mecanismo de repartição de benefícios da Informação Genética Digital (DSI). O Cali Fund entrou em operação em 2025 com projeção da London School of Economics de até US$ 3,6 bilhões anuais, caso houvesse adesão plena do setor privado.
A realidade, contudo, é outra. Segundo o Financial Times de 3 de novembro de 2026, o fundo havia recebido apenas US$ 10.588 de cinco empresas até aquele mês. A contribuição voluntária mostrou-se inócua para financiar um bem público global.
O buraco negro na fiscalização brasileira
O problema não é só externo. Metade das notificações de produtos derivados da biodiversidade — cosméticos, medicamentos, alimentos — analisadas no sistema nacional de patrimônio genético não contém informações suficientes para identificar a origem geográfica do recurso biológico.
Na Amazônia Legal, onde o potencial comercial é exponencial, a fiscalização esbarra na incapacidade elementar de rastrear a procedência do que se quer proteger.
- Patentes externas: 92% das inovações da Mata Atlântica registradas fora do Brasil (2023).
- Cali Fund (realidade): US$ 10.588 arrecadados até nov/2026.
- Cali Fund (projeção LSE): US$ 3,6 bi/ano com adesão total.
- Rastreabilidade nacional: 50% das notificações sem origem geográfica definida.
O que observar daqui para frente: o risco da conta inversa
O cenário desenha uma ironia perigosa: uma empresa brasileira pode ser obrigada a pagar royalties para utilizar uma tecnologia desenvolvida no exterior a partir do DNA de uma espécie amazônica. O Brasil exporta informação genética gratuitamente e importa o conhecimento a preço de patente.
Para investidores e gestores, os sinais de alerta são claros: a soberania sobre ativos biológicos dependerá cada vez mais de marcos regulatórios que tornem a repartição de benefícios obrigatória, de sistemas de rastreabilidade digital robustos (como certificados de origem baseados em blockchain) e da capacidade interna de converter biodiversidade em propriedade intelectual antes que o fizam os concorrentes. O próximo ciclo de valor não será definido por quem tem a floresta, mas por quem detém a patente do seu código genético.
