Quatro anos após a compra de US$ 44 bilhões, o X encolheu 25% em valor de mercado e viu a receita publicitária derreter 70%, mas quem permanece na plataforma passa mais tempo do que em qualquer outra rede social. O paradoxo expõe um modelo que premia o caos e prende pela dependência.
O acidente de um Learjet na Flórida, no fim de semana passado, serviu de laboratório: antes que autoridades explicassem a causa, o feed já decretava “míssil contra Mar-a-Lago”. A geografia desmentia — o voo partiu do Texas, a centenas de quilômetros de Palm Beach —, mas contas verificadas pagas amplificaram a mentira mais rápido que a apuração jornalística.
O mecanismo que transforma boato em “verdade”
Desde que Musk substituiu a verificação por assinatura, quem paga ganha alcance e remuneração por engajamento. O incentivo financeiro direto fez proliferar contas que lucram com discursos de ódio, teorias da conspiração e conteúdo pornográfico. Não há curadoria humana: o algoritmo prioriza indignação e absurdo, métricas que geram mais cliques.
Um exemplo recente: um trecho de podcast do ex-vice-diretor do FBI, Dan Bongino, sugerindo estoque de 30 dias de mantimentos virou “recomendação oficial de 90 dias” após poucos repasses. No X, cada compartilhamento infla a narrativa original até ela perder qualquer ligação com o fato.
Números que não mentem: o balanço financeiro
- Receita publicitária (1º semestre): US$ 2,2 bi (2022) → US$ 710 mi (2026) — queda de 68%
- Queda apenas de 2025 para 2026: 18%
- Valor de mercado (2025): US$ 33 bi, reavaliação interna entre empresas de Musk
- Perda desde a compra: mais de US$ 11 bilhões (26%)
- Usuários na UE: em declínio contínuo desde 2023
A plataforma saiu da bolsa justamente para evitar a pressão de acionistas. Se fosse listada, a queda de receita e a gestão errática provavelmente já teriam custado o cargo do CEO.
O megafone pessoal do dono
Musk doou US$ 474 milhões (R$ 2,57 bi) no último ciclo eleitoral americano. O feed passou a destacar organicamente conteúdo alinhado ao Partido Republicano nas midterms. Uma rede social inteira operando como extensão dos interesses políticos e comerciais de seu controlador — sem transparência algorítmica nem accountability.
Por que ninguém sai? O vício de 13 minutos
Dados da SimilarWeb (setembro/2026) mostram o retrato cruel: usuários do X passam 13min25s por visita, contra 10min15s no Facebook e 8min38s no Instagram. Menos gente, mas mais dependente. A plataforma encolhe, mas vicia quem fica.
Instituições europeias já entenderam o recado. A Deutsche Welle fechou contas em outubro; o Ministério da Defesa da Alemanha suspendeu publicações; órgãos públicos e partidos abandonaram a rede. O argumento é unânime: “não dá para manter marca séria onde ódio e desinformação correm soltos”.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis definirão se o X vira nicho ou colapsa: (1) a capacidade de atrair anunciantes sem moderação confiável; (2) a pressão regulatória da UE (DSA) e do Brasil (PL das Fake News); (3) a disposição de Musk em injetar capital próprio indefinidamente. Para profissionais de comunicação, a lição prática: diversifique canais. Depender de uma plataforma que premia o caos para gerar receita é risco de reputação — e de dinheiro.
