Economia

O legado do avô centenário que virou marca de café de R$ 30 o quilo

Sâmia Nápoles apresenta Café Nápoles na Expoece: café arábica 100% cearense da Serra de Aratuba
A empreendedora Sâmia Nápoles no estande de estreia do Café Nápoles na 70ª Expoece, em Fortaleza.

A professora Sâmia Nápoles, 30 anos, estreou na Expoece com o Café Nápoles: um arábica 100% cearense, cultivado em agrofloresta na Serra de Aratuba. A marca nasceu de uma promessa feita ao avô, Chico Cravo, falecido aos 100 anos. Como um negócio artesanal escala sem perder a alma?

O fato: estreia direta no grande varejo

A 70ª Exposição Agropecuária do Ceará serviu de vitrine inaugural. No estande, grãos torrados (clara, média, escura), moído e em grãos dividem espaço com mel de abelha nativa e biscoitos. As embalagens variam de 80g a 1kg, com preços entre R$ 10 e R$ 30.

O diferencial está na origem: Mata Atlântica no Maciço de Baturité. Não há mistura de lotes. É café de sombra, colhido uma vez ao ano, processado em fogão a lenha e pilão manual. Do campo à embalagem, o ciclo leva cerca de três horas de trabalho puro.

Por que o terroir cearense muda a equação de valor

Café no Ceará soa exótico, mas a Serra de Aratuba oferece altitude e clima ideais para arábica. O sistema agroflorestal integra cafeeiros a árvores centenárias. Isso dispensa insumos químicos pesados e garante certificação orgânica de facto, embora o selo oficial ainda seja um custo futuro.

Há um aliado invisível: a abelha uruçu amarela. Sem ferrão, ela poliniza o café dentro da mata. O mel (30ml e 40ml a R$ 5) vira segunda linha de receita com custo marginal quase zero. A simbiose reduz pragas e eleva a qualidade do grão.

Da commodity à marca: a verticalização familiar

Chico Cravo vendia grão verde a intermediários a vida toda. A neta quebrou o ciclo. A estrutura é enxuta:

  • Pai: know-how agronômico de décadas;
  • Marido (Victor): gestão e comercialização;
  • Sâmia: marca, narrativa e controle de qualidade.

Não há funcionários terceirizados na colheita nem na torra. O custo fixo é terra própria e mão de obra familiar. A margem, antes esmagada pelo atravessador, agora financia a expansão.

O gargalo da escala artesanal

Produzir café sombreado é lento. A colheita dura 30 dias. A secagem e beneficiamento dependem de sol e tempo. Para manter o preço de R$ 30/kg no varejo direto, o volume não pode explodir da noite para o dia sem perder o “feito à mão”.

A estratégia atual foca em canais curtos: feiras especializadas, e-commerce próprio e cafeterias de alto padrão. Entrar em supermercado exigiria padronização industrial que mataria a proposta de valor.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se o Café Nápoles vira case de sucesso ou permanece hobby rentável: a busca por Indicação Geográfica (IG) para o Maciço de Baturité, a profissionalização da logística de frio para grãos verdes e a sucessão no manejo agroflorestal quando o pai se afastar. O mercado de cafés especiais paga prêmio por rastreabilidade — e a família tem a história mais forte da região.