Meio Ambiente

Incêndio em Charqueada: empresa sem AVCB, 50m de chamas e o que a perícia ainda esconde

Incêndio de grandes proporções em empresa de combustíveis em Charqueada SP com chamas de 50 metros
Chamas de 50 metros consomem empresa sem AVCB em Charqueada; duas vítimas e SP-308 bloqueada.

Um incêndio de grandes proporções consumiu uma empresa de armazenamento e transporte de combustíveis em Charqueada (SP) na noite de terça-feira (3), revelando uma falha crítica: o local operava sem o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). Duas pessoas ficaram feridas, uma em estado grave.

As labaredas atingiram 50 metros de altura e forçaram o bloqueio da SP-308. Mas a ausência do laudo de segurança é apenas a ponta do iceberg em uma investigação que ainda tem respostas pendentes.

Como o fogo começou em segundos

O relato de um funcionário aos bombeiros aponta para a origem: um caminhão era abastecido com óleo altamente inflamável quando as chamas se iniciaram. A propagação foi imediata, atingindo veículos e tanques adjacentes em questão de minutos.

A perícia esteve no local na quarta-feira (4), mas a Polícia Civil de São Pedro mantém o inquérito sob sigilo. Não há prazo para a conclusão do laudo técnico que determinará a causa raiz.

O custo material: números da destruição

O balanço preliminar dos bombeiros dimensiona o prejuízo físico:

  • 3 cabines de caminhões destruídas
  • 4 carretas consumidas
  • 7 tanques com líquidos inflamáveis perdidos
  • 1 imóvel interno da empresa atingido

A rodovia Hermínio Petrin (SP-308), no km 192, ficou interditada durante o combate e a perícia, impactando o fluxo logístico da região.

Ausência do AVCB: o que isso significa na prática

O Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros atesta que a edificação cumpre normas de segurança contra incêndio e pânico — saídas de emergência, extintores, hidrantes, sinalização e compartimentação. Operar sem ele expõe a empresa a multas, interdição judicial e, no limite, responsabilidade criminal em caso de vítimas.

No caso de Charqueada, a corporação confirmou a irregularidade. Não foi informado se havia processo de regularização em andamento ou se a empresa já havia sido notificada anteriormente.

Vítimas: o silêncio dos hospitais

Dois trabalhadores, de 26 e 27 anos, deram entrada no Hospital Beneficente de Charqueada e foram transferidos para Piracicaba: um para a Santa Casa, outro para a UTI do Hospital dos Fornecedores de Cana (HFC).

A prefeitura afirmou inicialmente que não havia risco de vida. Contudo, as unidades de saúde em Piracicaba não divulgaram boletins médicos atualizados, o que impede confirmar a evolução do quadro clínico — especialmente do paciente em terapia intensiva.

Como o fogo foi controlado

O combate durou 1h30 e seguiu protocolo padrão para líquidos inflamáveis: resfriamento extensivo da área com água para evitar reignição e explosões secundárias, seguido da aplicação de Líquido Gerador de Espuma (LGE) para abafar as chamas e suprimir vapores.

Equipes de Piracicaba e São Pedro atuaram em conjunto. Não houve registro de propagação para áreas externas ao pátio da empresa.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes definirão os desdobramentos práticos deste caso: o laudo pericial da Polícia Civil, que pode indicar falha humana, falha de equipamento ou ambos; a posição do Ministério Público sobre a operação sem AVCB, que pode gerar ação civil pública; e a evolução médica dos feridos, que altera a tipificação penal se houver agravamento ou óbito.

Para empresários do setor de combustíveis e logística, o episódio reforça a necessidade de auditorias internas de segurança e a regularização documental antes de qualquer operação de risco. O custo da prevenção, mais uma vez, mostra-se infinitamente menor que o da tragédia.