O Ministério Público de São Paulo desmantelou nesta quarta-feira (4) uma organização que usava inteligência artificial para fabricar endossos falsos de médicos e celebridades — e o esquema ia muito além de anúncios enganosos. A operação Merovingian, conduzida pelo CyberGAECO com apoio do MP do Rio de Janeiro, cumpriu mandados de busca e apreensão contra suspeitos de criar, distribuir e ensinar a produzir deepfakes em escala industrial.
O foco central: vídeos manipulados onde Drauzio Varella, Cláudia Raia e outras figuras públicas apareciam recomendando suplementos e “tratamentos milagrosos” sem registro na Anvisa. Mas a investigação revelou uma camada mais perigosa — a venda de mentorias que ensinavam qualquer pessoa a replicar a fraude.
Como funcionava a esteira da fraude
Segundo o MP, o grupo estruturou um modelo de negócio em três frentes, todas alimentadas pela mesma tecnologia:
- Anúncios falsos no Meta: deepfakes veiculados como ads legítimos no Facebook e Instagram, aproveitando a autoridade de médicos para converter vendas.
- Produtos sem registro: substâncias comercializadas como suplementos ou medicamentos, prometendo curas rápidas sem aval sanitário.
- Cursos de “como fazer”: mentorias pagas que entregavam repositórios de imagens, áudios e tutoriais técnicos para replicar a técnica — incluindo orientações de precificação baseadas na credibilidade da vítima clonada.
Dispositivos apreendidos durante a operação devem mapear a extensão da rede e identificar outras vítimas cujas imagens foram sequestradas.
O precedente jurídico que pesa contra os operadores
Não é a primeira vez que o esquema chega aos tribunais. Em outubro, a 6ª Câmara de Direito Privado do TJSP elevou de R$ 10 mil para R$ 70 mil a indenização devida a Drauzio Varella em ação contra um curso que ensinava a fabricar anúncios com seu rosto e voz. O acórdão reconheceu:
- Coordenação direta dos réus na concepção e ministração das aulas;
- Disponibilização de bancos de imagens e áudios do médico aos alunos;
- Responsabilidade solidária de empresas e sócios envolvidos na operação.
Para o relator, a gravidade reside no uso de IA para forjar uma recomendação médica inexistente — criando risco real à saúde pública ao induzir consumidores ao erro.
Por que isso muda o jogo para plataformas e anunciantes
A operação expõe uma falha sistêmica: anúncios com deepfakes de alto realismo circularam como conteúdo pago nas maiores redes sociais do país. O CyberGAECO apura agora se houve negligência na moderação ou se os algoritmos de entrega amplificaram o golpe automaticamente.
Para o mercado legitimo, o recado é claro: a barreira de entrada para fraudes de identidade digital caiu a quase zero. Ferramentas antes restritas a estúdios agora rodam em notebooks comuns, e o conhecimento para usá-las está sendo comercializado como “curso de marketing”.
O que observar nos próximos meses
Três frentes devem ditar os desdobramentos:
- Perícia dos dispositivos: a análise do material apreendido pode revelar clientes das mentorias, ampliando o polo passivo da investigação.
- Posicionamento do Meta: a plataforma terá de explicar como anúncios com deepfakes conhecidos passaram pelo crivo de moderação e se haverá ressarcimento a anunciantes legítimos prejudicados pela concorrência desleal.
- Regulação da Anvisa: a venda de substâncias não registradas via deepfake pode acelerar normas mais duras para publicidade de saúde em ambiente digital.
Enquanto isso, qualquer profissional de saúde ou figura pública passa a ter um incentivo jurídico concreto para monitorar o uso não autorizado de sua imagem — e acionar o Judiciário com base em precedentes que já reconhecem o dano coletivo, não apenas o individual.
