Uma quadrilha especializada em invasão de sistemas corporativos foi alvo da Operação Chave Mestra, deflagrada nesta quarta-feira (4) em quatro estados. O vetor de ataque foi um golpe de SIM Swap que sequestrou a linha de um funcionário de um banco de desenvolvimento com atuação no Rio Grande do Sul. O detalhe mais alarmante: a brecha partiu de dentro de uma operadora de telefonia.
Como o sequestro da linha abriu as portas da instituição
Em dezembro de 2025, o celular corporativo da vítima parou de funcionar sem aviso prévio. Na mesma manhã, o número já havia sido migrado remotamente para um chip controlado pelos criminosos. Com o domínio da linha, o grupo interceptou códigos de verificação por SMS e redefiniu a senha de acesso ao ambiente corporativo do banco.
Durante cerca de 48 horas, o invasor baixou arquivos sensíveis — incluindo documentos sobre infraestrutura de tecnologia e segurança — e tentou, via aplicativo corporativo, convencer oito funcionários da área técnica a conceder privilégios de acesso aos sistemas centrais. Os pedidos foram recusados, e nenhuma movimentação financeira ocorreu no período.
O elo interno: funcionário de operadora no centro do esquema
A investigação da Polícia Civil do RS aponta que a troca do chip foi executada por um empregado da operadora, peça-chave do grupo. Ele e um familiar receberam aproximadamente R$ 44,7 mil via Pix entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, repassados por uma pessoa jurídica ligada ao esquema.
Além da transferência de linhas, o grupo comercializava serviços clandestinos de manipulação de chips, acesso indevido a sistemas internos da telefonia e até a exclusão de registros do Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP). Para operar, utilizavam VPN estrangeira e dispositivos com rotação constante de chips; um único aparelho esteve vinculado a 38 linhas de titulares de diferentes estados desde janeiro de 2025.
A engenharia financeira por trás da invasão
A análise patrimonial revelou uma estrutura de lavagem sofisticada. As movimentações atípicas nas contas dos principais investigados somam mais de R$ 3,7 milhões. A polícia localizou ainda um depósito em criptoativos estimado em cerca de R$ 5 milhões.
- Núcleo operacional: execução do SIM Swap e invasão;
- Operadores financeiros: movimentação e ocultação de valores;
- Agente interno: funcionário da operadora viabilizando a troca de chip;
- Compradores de informação: utilizavam os dados para aplicar golpes e invadir outras instituições financeiras.
O que observar daqui para frente
A operação resultou em cinco prisões até o momento, com seis mandados de prisão preventiva e dez de busca e apreensão cumpridos em Goiás, Paraná, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Bloqueios de contas e criptoativos também foram determinados.
O caso escancara a fragilidade da autenticação baseada exclusivamente em SMS para acessos corporativos sensíveis. Para gestores de segurança e compliance, o alerta é claro: a proteção da identidade digital dos colaboradores — especialmente os com privilégios administrativos — deve prever fatores de autenticação resistentes a phishing e SIM Swap, como chaves de hardware (FIDO2) ou autenticadores de aplicativo, eliminando a dependência da rede telefônica como elo de confiança.
