Economia

Aeris pede recuperação com dívida de R$ 1,5 bi: 42% dos credores já aderiram

Fábrica da Aeris com pás eólicas: recuperação extrajudicial de R$ 1,5 bi
Unidade industrial da Aeris, maior fabricante de pás eólicas do Brasil, que pediu recuperação extrajudicial.

A fabricante de pás eólicas Aeris protocolou nesta quarta-feira (4) pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar R$ 1,52 bilhão em dívidas. O plano já nasce com a adesão de credores que representam 42,18% dos créditos abrangidos — acima do terço mínimo exigido para dar andamento ao processo.

O movimento coloca em xeque a trajetória de uma das principais fornecedoras da cadeia de energia renovável no Brasil. A pergunta que fica: o fôlego de 90 dias para ampliar o apoio será suficiente?

O que está em jogo no plano apresentado

A recuperação extrajudicial cobre apenas dívidas sem garantias reais ou fiduciárias. Créditos decorrentes de fornecimento operacional de bens e serviços ficam de fora — o que preserva a relação com fornecedores do dia a dia.

Segundo o fato relevante enviado à CVM, o objetivo é “viabilizar a readequação da estrutura de capital e a redução de alavancagem”. Em linguagem direta: alongar prazos, reduzir o custo da dívida e manter a fábrica rodando.

A meta judicial é clara: obter adesão de mais da metade dos credores, que juntos representem mais da metade do valor total dos créditos, em até 90 dias. Só assim o plano será homologado pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

Números que desenham o tamanho do desafio

  • Dívida total alvo: R$ 1,52 bilhão
  • Adesão inicial: 42,18% dos créditos abrangidos
  • Prazo para ampliar apoio: 90 dias
  • Threshold de homologação: >50% dos credores e >50% do valor

A fábrica no complexo do Pecém, no Ceará, segue operando. A empresa reforça que a continuidade da produção, a manutenção dos empregos e a arrecadação tributária são pilares do plano.

Da Embraer ao IPO: uma trajetória de 14 anos

Fundada em 2010 por ex-engenheiros da Embraer, a Aeris nasceu com DNA de engenharia aeroespacial aplicada a pás eólicas. O aporte do empresário Alexandre Negrão — fundador do laboratório Medley e atual CEO — deu musculatura financeira nos primeiros anos.

O IPO na B3, em novembro de 2020, captou R$ 1,13 bilhão. À época, a ação estreou em alta e a companhia era vista como “proxy” direta da expansão eólica no Nordeste. Quatro anos depois, o cenário mudou.

Por que a alavancagem saiu do controle

O setor eólico viveu ciclos de leilões irregulares, atrasos em conexão de transmissão e pressão de margens. A Aeris, concentrada em um único produto e cliente majoritariamente nacional, sentiu o impacto com mais intensidade que concorrentes diversificados.

A recuperação extrajudicial — mais rápida e menos onerosa que a judicial — sinaliza que a diretoria acredita na viabilidade do negócio, desde que a estrutura de capital seja reequilibrada agora.

O que observar daqui para frente

Os próximos 90 dias dirão se o plano tem tração. Acompanhe: a evolução da adesão de credores (divulgada em fatos relevantes), eventuais assembleias de classe e a capacidade da empresa de manter contratos de fornecimento firmes enquanto negocia.

Para quem tem exposição — seja como credor, acionista ou parceiro comercial —, o sinal verde virá da homologação. Até lá, a fábrica gira. E o relógio corre.