A BMW cortou o lucro em 15% no terceiro trimestre e vai antecipar demissões, enquanto a Volvo viu as vendas derreterem 16% no mesmo período. O denominador comum é a China, e o impacto já respinga em toda a cadeia alemã. O que vem a seguir pode redefinir o ritmo de contratações e investimentos no setor.
Os números divulgados nesta quarta-feira (4) expõem uma fragilidade que vai além de uma sazonalidade ruim. A receita da alemã recuou 6%, para 30,5 bilhões de euros, e as entregas globais caíram 6,3%. Mas é o tom da gestão que assusta: o CEO Milan Nedeljkovic disse que irá “até onde as pernas levarem” nos cortes de custos.
O plano de enxugamento ganhou velocidade
Em julho, a meta era eliminar 8.000 postos até 2027. A adesão massiva ao programa de demissão voluntária (PDV) recente mudou o cronograma. “Conseguiremos concluir o programa em pouco tempo”, afirmou Nedeljkovic, sem revelar o novo total de cortes.
A lógica é fria: a resposta positiva ao PDV abriu espaço para enxugar a estrutura mais rápido. Para o investidor, isso sinaliza preservação de caixa; para o mercado de trabalho, antecipa uma onda de mão de obra especializada disponível.
China: o epicentro da queda
O mercado chinês despencou 24,8% nas entregas da BMW entre julho e setembro. Não é um problema isolado da marca bávara. A Mercedes-Benz reativou seu próprio programa de demissões e a Volkswagen planeja cortar 120 mil vagas globais até 2030.
- Lucro líquido BMW (3T): 1,45 bi € (-15% a/a)
- Receita BMW (3T): 30,5 bi € (-6% a/a)
- Entregas globais BMW: -6,3%
- Entregas na China: -24,8%
- Vendas Volvo (3T): 141,65 mil unidades (-16% a/a)
Essa sincronia de cortes entre as três gigantes alemãs sugere um ajuste estrutural, não conjuntural. A capacidade ociosa na China forçou uma reavaliação global de custos fixos.
Volvo: eletrificação avança, mas volume some
Enquanto o total caiu 16%, os 100% elétricos subiram 27% e já representam 34% do mix. Híbridos plug-in, porém, tombaram 30%. A controlada pela Geely admite: na China, o foco virou “estabilizar, não buscar volume”.
O lançamento do EX60 patina no ramp-up de produção. No mês passado, a sueca já havia anunciado mais 2,5 mil demissões, jogando as ações para mínimas históricas. A transição energética está cara e a demanda não acompanha a oferta planejada.
O que observar daqui para frente
O guidance para o último trimestre será decisivo. Se a BMW confirmar que o fluxo de caixa livre se mantém positivo mesmo com receita menor, o mercado pode perdoar o lucro achatado. Caso contrário, a revisão de metas anuais virá acompanhada de novos anúncios de reestruturação.
Para quem gere cadeia de fornecimento ou fundos setoriais, três variáveis mandam no curto prazo: velocidade do consumo chinês, taxa de conversão de elétricos na Europa e disciplina de capex das alemãs. O ciclo de alta acabou; agora é gestão de margem em ambiente de volume comprimido.
