Economia

Novo Nordisk surpreende e eleva meta: o segredo por trás do salto de 27% no lucro

Comprimidos de semaglutida oral Rybelsus da Novo Nordisk sobre superfície azul corporativa
O formato em comprimido impulsiona a terceira elevação de meta da farmacêutica dinamarquesa em 2024

A Novo Nordisk elevou pela terceira vez em 2024 a projeção anual de lucro e vendas, impulsionada por um salto de 27% no resultado operacional do terceiro trimestre. A ação reagiu com alta imediata, mas o verdadeiro motor dessa virada não está no injetável que todos conhecem. O dado que explica a guinada está escondido no formato de comprimido.

O lucro operacional ajustado atingiu 31,7 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de R$ 26 bilhões), superando o consenso de mercado de 28,4 bilhões. As vendas totais chegaram a 79,2 bilhões de coroas (R$ 65 bilhões), bem acima dos 73,2 bilhões esperados. Com isso, a faixa de crescimento para o ano inteiro passou de “estabilidade a queda de 6%” para “crescimento de 2% a queda de 2%”.

O comprimido que mudou o jogo

O grande destaque do balanço foi o Wegovy em versão oral. Lançado nos EUA em janeiro, o medicamento gerou 5,39 bilhões de coroas (R$ 4,4 bilhões) apenas no terceiro trimestre — um avanço de 53% frente aos três meses anteriores e 17% acima das estimativas dos analistas.

Nos Estados Unidos, as vendas do comprimido somaram 4,18 bilhões de coroas (R$ 3,4 bilhões). No exterior, outros 1,22 bilhão de coroas (R$ 1 bilhão). Desde o lançamento, já são mais de 8 milhões de prescrições, sendo 3,6 milhões só no último trimestre.

  • Participação nas vendas totais: cerca de 6% da receita projetada.
  • Novos pacientes (EUA): responde por ~80% das novas prescrições da marca Wegovy.
  • Projeção 2030: comprimidos podem representar até 50% do mercado de obesidade.

Para o CEO Mike Doustdar, a adoção contínua nos EUA e os lançamentos internacionais iniciais explicam a melhora. Mas há um sinal de alerta: a curva de novas prescrições estabilizou nas últimas semanas, atribuída à sazonalidade. A expectativa da gestão é de retomada no período de Natal e Ano Novo.

Eli Lilly na frente no injetável; Novo aposta no oral

Não há como ignorar o contexto competitivo. A Eli Lilly, com o Mounjaro e o Zepbound, lidera disparado o segmento de injetáveis para obesidade. As ações da rival dispararam nos últimos meses, enquanto a Novo caiu mais de 70% desde o pico de valorização em 2023, quando chegou a valer mais de US$ 600 bilhões.

A estratégia dinamarquesa, portanto, é clara: migrar o foco para o oral. O concorrente direto, o Foundayo (orforglipron), da Lilly, já começa a ganhar fatia nas novas receitas. A corrida agora é por conveniência e adesão de longo prazo, não apenas eficácia clínica.

Mudanças na gestão e pressão de preços nos EUA

O balanço trouxe novidades no C-level. Karsten Munk Knudsen, CFO desde 2018, deixará o cargo em dezembro. O substituto será Luigi La Corte, atual diretor financeiro da Galderma. A troca ocorre no momento em que a empresa navega pela transição de portfólio e pressão regulatória.

Outro ponto crítico: a partir de 1º de janeiro, os preços de tabela do Wegovy e do Ozempic nos EUA caem para US$ 675 por mês. Representam reduções de aproximadamente 50% e 35%, respectivamente. A empresa já admite que isso impactará o fluxo de caixa de 2027.

O que observar daqui para frente

A guidance para 2027 só será detalhada em fevereiro, mas a Novo já antecipou os ventos contrários: perda de exclusividade da semaglutida em mercados internacionais, pressão contínua na China e um efeito preço (bruto-líquido) menos favorável que em 2026. Para o investidor, a equação é simples: a tese de recuperação depende integralmente da capacidade do comprimido Wegovy sustentar o crescimento de volume suficiente para compensar a compressão de margem nos injetáveis. O próximo trimestre dirá se a sazonalidade de fim de ano cumpre a promessa de reaceleração.