Economia

Reforma tributária: 25 entidades pedem adiamento da CBS para 2028 — entenda o risco para seu negócio

Documento da carta aberta assinada por 25 entidades tributárias solicitando adiamento da CBS para 2028
Entidades tributárias entregam carta ao governo pedindo adiamento da CBS para 2028

Mais de 20 das mais respeitadas entidades de Direito Tributário do país assinaram uma carta aberta pedindo o adiamento da implementação efetiva da CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) para 2028. O motivo: um calendário apertado, sistemas inoperantes e o risco real de insegurança jurídica para empresas de todos os portes.

O documento, divulgado no último sábado (31), não contesta a reforma — apoia seus objetivos de simplificação e transparência. Mas alerta: sem condições técnicas e jurídicas mínimas, o novo modelo pode nascer travado, gerando custos extras e disputas judiciais em cascata.

O gargalo da alíquota: duas semanas para decidir o ano inteiro

O ponto mais crítico exposto na carta é a definição da alíquota da CBS. O Senado tem até 15 de dezembro para fixar o percentual. Se o prazo for usado integralmente, as empresas terão pouco mais de 15 dias para avaliar impactos, renegociar contratos, revisar preços e adaptar operações antes de 1º de janeiro.

Para setores com cadeias longas ou margens comprimidas, esse intervalo é impraticável. A carta enfatiza que cada segmento econômico tem particularidades que impedem uma análise padronizada em tempo recorde.

Sistema de apuração assistida: a ferramenta que não funciona

O mecanismo que deveria auxiliar o cálculo da CBS e do IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) usando dados das operações dos contribuintes ainda não está plenamente operacional. Sem ele, as empresas não conseguem testar procedimentos, validar parametrizações nem treinar equipes com antecedência segura.

O ano de testes de 2026, previsto no calendário original, não cumpriu sua finalidade — sobretudo pelos atrasos do próprio poder público na entrega de regras e ferramentas.

O que as empresas precisam adaptar (e não tiveram tempo)

  • ERPs e sistemas de gestão: parametrização tributária, regras de crédito e débito, novas bases de cálculo
  • Emissão de notas fiscais: layout, campos obrigatórios, integração com o portal nacional
  • Controles internos: conciliação de créditos, apuração de bases, geração de obrigações acessórias
  • Contratos e precificação: revisão de cláusulas de repasse, reequilíbrio econômico-financeiro

Os atrasos na definição de regras públicas comprimiram o prazo para todas essas frentes simultaneamente.

O risco judicial que ninguém está falando

Um ponto técnico, mas explosivo: o IBS começa a incidir em 2027 com alíquota de 0,1%, enquanto a CBS estreia em 2027 ou 2028. Como ambos podem incidir sobre a mesma operação, mas estão sujeitos a competências jurisdicionais distintas (estadual/municipal vs. federal), existe risco concreto de decisões contraditórias para um mesmo fato gerador.

Não há, hoje, estrutura processual adequada para harmonizar esses conflitos. A carta pede a criação de mecanismos específicos antes da vigência efetiva.

O que disse o presidente do CESA

Gustavo Brigagão, presidente nacional do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados, resumiu a posição das 25 signatárias: “Não se trata de resistir às mudanças, mas de assegurar que sejam feitas com responsabilidade e segurança jurídica. A reforma não pode começar a funcionar sem que estejam asseguradas as condições necessárias para isso.”

O que observar daqui para frente

O Senado tem até meados de dezembro para definir a alíquota da CBS. Se o prazo for mantido, a janela de adaptação real para as empresas será de semanas — não meses. Acompanhe:

  • Votação do projeto de lei complementar que fixa a alíquota de referência
  • Publicação de atos normativos regulamentando o sistema de apuração assistida
  • Posicionamento do Ministério da Fazenda sobre o pedido de adiamento
  • Eventuais medidas provisórias ou projetos de lei alterando o calendário

Para gestores e contadores, a recomendação prática é iniciar agora a mapeamento de gaps nos sistemas internos e a revisão de contratos de longo prazo — independentemente do desfecho político. O custo de não se preparar supera, de longe, o custo de se preparar antecipadamente.