Economia

O boom do biodiesel que ninguém previu: soja e palma viram “novo petróleo”

Plantação de soja e palmeiras de óleo com caminhões transportando biodiesel, simbolizando nova matriz energética
Soja e palma impulsionam recorde de mistura de biodiesel no Brasil, EUA e Tailândia.

A demanda por óleos vegetais para mistura ao diesel disparou 122% em apenas quatro anos nos três maiores mercados consumidores — Brasil, EUA e Tailândia —, atingindo 34,3 milhões de toneladas projetadas. Se a União Europeia entrar na conta, o volume salta para 40,3 milhões. O que parecia transição ambiental virou questão de segurança nacional.

Guerras, embargos e a volatilidade do barril forçaram governos a acelerar mandatos de mistulação. O resultado: a soja e a palma deixaram de ser apenas commodities agrícolas para assumir papel estratégico nas matrizes energéticas. Mas a conta chega na mesa do consumidor.

O gatilho geopolítico que mudou as regras do jogo

O estrangulamento do fornecimento de petróleo após conflitos no Oriente Médio empurrou a mistura de biodiesel para o centro da política energética. A Indonésia adotou em julho o B50 — 50% de óleo de palma no diesel — e deve consumir 17,4 milhões de toneladas em 2025, contra 7,2 milhões em 2020. A Malásia subiu para B20. A Tailândia também está em B20, embora opcional.

Nos Estados Unidos, reformas recentes no sistema de créditos energéticos elevaram a projeção de 5 para 8,1 milhões de toneladas de óleo de soja. No Brasil, a implementação do B16 em março próximo levaria o consumo de 4,2 para 8,7 milhões de toneladas.

O efeito direto no bolso do produtor — e no prato do consumidor

A corrida pela matéria-prima inflou a demanda agrícola. Nos últimos 15 anos, o uso de óleo de soja para biodiesel saltou 913% nos EUA e 383% no Brasil. A produção global de soja acompanhou: de 261 milhões de toneladas na safra 2010/11 para 443 milhões projetadas em 2026/27, segundo o USDA. O Brasil sozinho deve colher 182 milhões, mais que o dobro de 2011.

Mas a oferta não cresce no mesmo ritmo da queima. O estoque mundial de óleos vegetais aperta, e os preços respondem. Desde 2020, a inflação média dos alimentos acumulou 73% — o óleo de soja subiu 145%, conforme a Fipe. Quebras de safra e redução de estoques amplificaram o movimento.

Os números que desenham o novo mapa da oferta

  • Produção global de óleos vegetais (2024): 243 milhões de toneladas
  • Óleo de palma: 79 milhões de toneladas
  • Óleo de soja: 75 milhões de toneladas
  • Canola: 38 milhões de toneladas
  • Girassol: 24 milhões de toneladas

A Índia ilustra o gargalo: importa cerca de 16 milhões de toneladas por ano só para alimentação. Com mais óleo desviado para tanques, a competição entre prato e tanque deixa de ser teórica.

A aposta na macaúba e o que vem pela frente

Enquanto soja e palma dominam, a macaúba surge como carta na manga: rende de 7 a 10 vezes mais óleo por hectare que a soja. Ainda em fase de escala, pode aliviar a pressão de uso de terra — se a tecnologia de plantio e extração amadurecer a tempo.

O cenário para 2026/27 aponta para 443 milhões de toneladas de soja no mundo. O Brasil, maior exportador, carrega a responsabilidade de entregar volume sem derrubar florestas. O marco regulatório do B16 em março será o primeiro teste de fogo: se confirmado, puxa 4,5 milhões de toneladas extras de óleo de soja só no mercado interno.

O que observar nos próximos trimestres

Três variáveis ditam o ritmo: a implementação efetiva do B16 no Brasil, a manutenção do B50 na Indonésia e a evolução dos estoques globais de soja. Qualquer desvio — clima adverso, mudança de mandato, freio logístico — reverbera em Chicago, em Dalian e na gôndola do supermercado. O biodiesel deixou de ser coadjuvante. Virou variável macroeconômica.