As maiores fabricantes de automóveis do mundo acabam de fazer um apelo direto ao Congresso americano: querem uma lei que proíba permanentemente a entrada de veículos chineses nos Estados Unidos. A movimentação acontece na semana em que os parlamentares retomam os trabalhos após as eleições de meio de mandato. O que está em jogo vai muito além de tarifas comerciais.
A Alliance for Automotive Innovation — entidade que reúne GM, Ford, Toyota, Volkswagen, Hyundai, Stellantis e outras 20 marcas — argumenta que a enxurrada de importações traz riscos de vigilância e compromete bilhões investidos em solo americano. O presidente da associação, John Bozzella, foi taxativo: o mercado dos EUA não pode repetir o que aconteceu na Europa.
O que já existe e o que falta
Desde o início de 2025, regulamentos do governo Biden já impedem, na prática, que montadoras chinesas vendam ou produzam carros de passeio no país. A justificativa oficial é o risco de envio de dados sensíveis de motoristas para a China. Sobre veículos elétricos chineses, tarifas superiores a 100% funcionam como barreira adicional.
O que as fabricantes querem agora é transformar essas restrições em lei permanente. O projeto avançou em julho, aprovado por uma comissão do Senado com apoio dos dois partidos. Na Câmara, mais de 100 deputados assinam como coautores. Mas a tramitação foi adiada para novembro.
O fator Trump preocupa o setor
Em setembro, o ex-presidente e candidato Donald Trump declarou à Fox News que aceitaria empresas chinesas produzindo em território americano. A fala gerou apreensão entre executivos e assessores legislativos. Se os democratas conquistarem o controle do Congresso, o tempo para votar o banimento antes do recesso de dezembro pode simplesmente acabar.
Montadoras e assessores ainda apostam na aprovação neste ano. A janela, porém, é estreita.
O espelho europeu: 1,1 milhão de veículos em oito meses
Para justificar a urgência, Bozzella citou dados da União Europeia. Nos oito primeiros meses de 2026, o bloco importou mais de 1,1 milhão de veículos fabricados na China — volume superior a todo o ano de 2025. O avanço foi rápido e, segundo a entidade, ocorreu sem reciprocidade.
- 2025 (ano inteiro): importações da China abaixo de 1,1 milhão
- Jan–Ago 2026: 1,1 milhão de unidades
- Principais marcas: BYD, MG (SAIC), Geely (Volvo, Polestar), Leapmotor
O Ministério das Relações Exteriores da China classificou as propostas americanas como “repressão injustificada” e pediu respeito às leis de mercado e concorrência justa.
Segurança nacional ou protecionismo industrial?
O debate mistura dois eixos. De um lado, a vulnerabilidade de dados: carros conectados coletam localização, hábitos de direção, áudio e vídeo do interior do veículo. De outro, a disputa por cadeias de suprimentos de baterias, semicondutores e software embarcado — setores onde a China tem avançado agressivamente.
As montadoras estabelecidas nos EUA dizem ter investido “de longo alcance” em fábricas, centros de P&D e comunidades locais. O receio é que a entrada de competidores subsidiados pelo Estado chinês desmonte esse ecossistema antes que a transição elétrica se consolide.
O que observar nas próximas semanas
A votação no Senado deve ser o termômetro. Se o projeto for acelerado ainda em novembro, o banimento permanente vira lei antes da posse do novo Congresso em janeiro. Caso contrário, a decisão passa para 2027 — com composição parlamentar indefinida e a indústria chinesa mais um ano livre para estruturar operações no México, porta de entrada natural para o mercado americano sob o USMCA.
Para quem acompanha o setor, o sinal está dado: a disputa pelo automóvel do futuro não será decidida apenas nos laboratórios, mas no plenário do Capitólio.
