Justiça

Fim das bets: Flamengo perde R$ 430 mi e clubes correm ao STF

Flamengo e clubes da Série A no STF discutem fim das bets e perda de R$ 430 milhões
Vice-presidente do Flamengo expõe impacto financeiro da proibição das apostas em audiência no Supremo.

Clubes da Série A declararam ao Supremo Tribunal Federal que a proibição súbita das apostas de quota fixa quebra contratos firmados sob a lei anterior e ameaça receitas já contabilizadas nos orçamentos de 2024. A audiência pública desta terça (3) expôs um racha entre o argumento jurídico das instituições e a política de saúde pública defendida pelo governo.

O vice-presidente do Flamengo, Flávio Willeman, foi direto: o clube pode deixar de receber cerca de R$ 430 milhões por ano com o fim dos patrocínios de casas de apostas. “O Flamengo respeita as regras jurídicas vigentes. Portanto, buscou a sua reestruturação à luz desses preceitos”, afirmou.

O efeito cascata nas receitas

Mattheus Montenegro, presidente do Fluminense, detalhou a anatomia financeira do futebol brasileiro. Os clubes dependem de cinco pilares: venda de atletas, direitos de TV, patrocínios, sócio-torcedor e bilheteria. A proibição atinge dois de uma só vez.

  • Patrônios master e de manga — valores diretos estampados na camisa
  • Cotas de publicidade compradas pelas bets nas emissoras de TV — receita indireta dos direitos de transmissão

“Não teve no mundo nenhum mercado que restringiu a publicidade das casas de apostas em menos de 10 meses. O Brasil está tentando fazer isso com o prazo de 10 dias”, comparou Montenegro.

Recuperação judicial na mira

O caso do Botafogo expõe o risco sistêmico. A SAF do clube está em recuperação judicial e o plano de pagamento de credores considera o fluxo de caixa do patrocínio master com uma casa de apostas. “O plano naturalmente contava com fluxo de caixa dos recursos gerados pelo seu contrato de patrocínio master”, explicou o advogado Bichara Abidão Neto.

Se a receita some, o plano de recuperação pode colapsar — arrastando credores, fornecedores e atletas.

Desequilíbrio competitivo sul-americano

O Cruzeiro trouxe a dimensão internacional. O advogado José Francisco Manssur alertou: clubes argentinos seguirão estampando bets nas camisas e recebendo verbas de publicidade nas transmissões locais. O resultado? Disparidade financeira na Libertadores e na Sul-Americana.

“Especialmente entre os nossos clubes e os clubes dos nossos rivais argentinos, que continuarão tendo as bets em suas camisas”, pontuou.

Integridade esportiva e mercado paralelo

A advogada Danielle Maiolini, pelo São Paulo, levantou um paradoxo: plataformas não reguladas pelo Brasil continuam acessíveis a apostadores brasileiros, mas sem qualquer obrigação de monitorar manipulação de resultados.

“O clube passa a enfrentar um cenário de absoluta insegurança jurídica e perde importantes aliados no combate a medidas contrárias à manipulação de competições”, disse.

O Corinthians, por seu advogado Pedro Luís Soares, reconheceu a gravidade do vício em apostas — “um problema crônico familiar brasileiro” — mas defendeu transição gradual para evitar colapso orçamentário.

O outro lado: saúde pública e endividamento

O governo federal proibiu as bets em setembro via medida provisória, citando 50 milhões de usuários e mais de 80 empresas operando no país. O pacote mira o endividamento das famílias e quadros de ansiedade, depressão, alcoolismo e suicídio associados ao jogo compulsivo.

O ministro da Casa Civil, Rui Costa, mencionou impacto direto no SUS. A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) acionou o STF pedindo a retomada das operações e da publicidade.

O que observar daqui para frente

O STF não tem prazo para decidir. Enquanto isso, clubes que já receberam parcelas de patrocínio 2024 veem o fluxo futuro incerto. Três variáveis definirão o desfecho: se a Corte aceita regras de transição, se o Congresso converte a MP em lei com prazos maiores e se o mercado paralelo cresce na ausência de regulados. Para investidores e gestores, o sinal é claro: modelos de receita baseados em patrocínio de apostas tornaram-se ativos de alto risco regulatório.