O mercado financeiro acabou de revisar suas apostas para 2026 e o recado é claro: a inflação não cede, o crescimento desacelera e o dólar deve fechar o ano acima de R$ 5,30. Os números saíram no primeiro Boletim Focus após as eleições presidenciais e mostram uma piora generalizada nas expectativas.
Mas por que os analistas aumentaram a projeção de juros se a Selic atual já está em 13,75%? A resposta está no detalhe que a maioria ignora.
Juros: o mercado vê menos espaço para corte
A estimativa para a taxa Selic no fim de 2026 subiu de 13,25% para 13,5% em uma semana. Parece pouco, mas quebra a expectativa de um afrouxamento mais agressivo. Hoje, a taxa está em 13,75% — o que significa que o mercado precifica apenas 0,25 ponto percentual de redução até dezembro.
Para 2027 e 2028, as projeções seguem em 12,5% e 11%, respectivamente. O Banco Central mantém o instrumento principal de controle inflacionário em patamar restritivo por mais tempo.
Inflação: alimentos impedem alívio duradouro
O IPCA esperado para 2026 passou de 5,19% para 5,22% — a quarta alta consecutiva. Há um mês, a projeção era 5,01%. O teto da meta (4,5%) segue distante.
O IPCA-15 de outubro trouxe 0,32% no mês e 4,62% em 12 meses. A energia elétrica caiu com a bandeira verde, mas os alimentos pressionaram forte:
- Tomate: +24,54%
- Cebola: +13,63%
- Batata-inglesa: +10,96%
- Arroz: +5,80%
Essa volatilidade dificulta qualquer convergência rápida ao centro da meta.
PIB: terceira queda seguida na projeção
A economia deve crescer 1,76% em 2026, ante 1,8% na semana passada. É a terceira redução consecutiva. Para 2027, a expectativa é de apenas 1,2% — um cenário de quase estagnação. O ano de 2028 aparece com 1,8%, mas a distância torna a projeção pouco confiável.
Juros altos por mais tempo explicam parte dessa revisão: crédito caro freia consumo e investimento.
Câmbio: dólar salta para R$ 5,34
A surpresa mais forte veio do dólar. A cotação projetada para o fim de 2026 subiu de R$ 5,05 para R$ 5,34 em sete dias — alta de quase 6%. Para 2027 e 2028, a moeda americana deve fechar em R$ 5,40.
O movimento reflete incerteza fiscal e externa. Quem tem exposição cambial não planejada sente o impacto no caixa.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar os próximos Focus: a tramitação do pacote fiscal no Congresso, a condução da política monetária nos EUA e a safra de grãos no primeiro semestre. Se o arcabouço fiscal entregar credibilidade, o dólar pode recuar e abrir espaço para Selic menor. Caso contrário, as projeções de hoje podem parecer otimistas.
Para o gestor de caixa, a lição prática: mantenha proteção cambial e posicione a curva de juros para cenário de Selic acima de 13% até meados de 2027. O mercado já precificou pessimismo — surpresas positivas, agora, movem mais o preço.
