Economia

Aramco lucra US$ 36 bi sob ataques: a rota secreta que driblou o bloqueio

Mapa da rede de dutos da Saudi Aramco que contorna o Estreito de Ormuz garantindo lucro recorde sob ataques
A infraestrutura de dutos alternativos permite à Aramco exportar petróleo ignorando o bloqueio no Estreito de Ormuz.

A Saudi Aramco registrou lucro líquido de US$ 36,25 bilhões no terceiro trimestre, alta de 34,5% frente a 2023, mesmo operando sob bombardeios constantes e com a produção cortada em quase 2 milhões de barris por dia. O segredo para transformar caos geopolítico em caixa recorde está no mapa: uma rede de dutos que torna o Estreito de Ormuz opcional.

O resultado superou as projeções dos analistas, que miravam US$ 30,66 bilhões no lucro ajustado. Mas a manchete esconde a verdadeira jogada estratégica: enquanto petroleiros são afundados no Mar Vermelho, a estatal saudita está reescrevendo a logística global de energia.

O preço pagou a conta da guerra

O barril realizado pela companhia saltou para US$ 95,20 no período, ante US$ 70,10 um ano antes. Esse prêmio de 36% no preço compensou, com folga, a queda de volume. A produção total de hidrocarbonetos caiu para 11,05 milhões de boepd, contra 13,3 milhões no mesmo trimestre de 2023.

Em números absolutos, a Arábia Saudita produziu cerca de 8 milhões de bpd em setembro, segundo dados secundários da Opep. Antes do conflito EUA-Irã, o reino bombava pouco mais de 10 milhões. A confiabilidade do abastecimento, embora resiliente, escorregou para 97,8% — era 99,9% em condições normais.

A “linha de vida” que contorna Ormuz

O oleoduto Leste-Oeste, que liga os campos do Golfo Pérsico aos terminais do Mar Vermelho, virou a peça central do xadrez. Originalmente com capacidade para 5 milhões de bpd, ele opera hoje no limite de 7 milhões e já sofreu múltiplos ataques desde fevereiro.

O CEO Amin Nasser confirmou em teleconferência que a ampliação dessa rota já começou. O plano, endossado pelo ministro da Energia, príncipe Abdulaziz bin Salman, é empurrar a capacidade de exportação por dutos para 10 milhões de bpd. Isso envolve converter um gasoduto doméstico e expandir a malha existente.

  • Rota 1: Golfo Pérsico / Estreito de Ormuz (bloqueado de fato).
  • Rota 2: Oleoduto Leste-Oeste / Mar Vermelho / Bab el-Mandeb (sob ataque houthi).
  • Rota 3: Oleoduto Leste-Oeste / Canal de Suez (rota alternativa ativa).

Nasser admitiu que a empresa estuda “novas rotas de exportação” e engenharia para armazenamento no exterior, mas detalhes só virão após decisões finais de investimento (FID). A venda da participação de 50% na PRefChem, na Malásia, para a Petronas, em setembro, liberou capital para esse rearme logístico.

Frete 15 vezes mais caro e a inflação importada

Mais de 130 ataques a petroleiros foram contabilizados no conflito. O frete de VLCCs — navios que carregam 2 milhões de barris — explodiu 1.500% em relação ao ano passado. Para Nasser, o choque logístico já contaminou a economia real: “Custos de transporte mais altos, escassez de fertilizantes e impactos sobre alimentos alimentam pressões inflacionárias globais”.

Mesmo assim, a petroleira manteve o dividendo base em US$ 21,9 bilhões, alinhado ao guidance anual. Projetos de crescimento seguem no radar: a fase 2 do gás não convencional de Jafurah (meta de 56,6 milhões de m³/dia até 2030) e o campo de Zuluf, que já produz e deve atingir 600 mil bpd em 2026.

O que observar daqui para frente

A equação de 2025 depende de duas variáveis que a Aramco não controla: a duração do bloqueio em Ormuz e a capacidade de defesa do corredor do Mar Vermelho. Se a ampliação do duto para 10 milhões de bpd sair do papel no prazo, a Arábia Saudita ganha imunidade parcial ao estreito mais vigiado do mundo.

Para o investidor, o sinal está dado: a empresa aposta que a volatilidade geopolítica veio para ficar e precifica seus ativos para lucrar com a insegurança alheia. A próxima conferência de resultados dirá se a engenharia consegue correr mais rápido que os mísseis.