O secretário-geral da ONU, António Guterres, acaba de alertar: jornalistas pagam um “preço exorbitante” por dizer a verdade, e o número de mortos no biênio 2024-2025 atingiu 189 — o maior desde 2014-2015. A escalada envolve drones, novas armas e zonas de conflito onde a informação deixou de ser testemunha para virar alvo.
O dado não é apenas humanitário. Para quem decide alocação de capital, gestão de risco ou expansão geográfica, a impunidade contra a imprensa sinaliza instabilidade institucional que afeta contratos, cadeias de suprimento e valor de ativos.
Por que 2026 muda o jogo para quem monitora risco país
O Dia Internacional pelo Fim da Impunidade, marcado em 2 de novembro, homenageia os franceses Ghislaine Dupont e Claude Verlon, executados no Mali em 2013. Treze anos depois, a ONU escolheu focar em como tecnologias emergentes — drones armados, vigilância algorítmica, armas autônomas — estão reescrevendo as regras de engajamento contra profissionais de mídia.
Relatórios da organização indicam que a maior parte das 189 mortes ocorreu em teatros de guerra ativos. Ataques com veículos aéreos não tripulados deixaram de ser exceção para virar padrão tático. Isso significa que a distinção entre combatente e observador está sendo apagada por software, não por decreto.
Para analistas de risco soberano, a lição é clara: onde a imprensa é silenciada por tecnologia militar, a transparência regulatória costuma ser a próxima a cair.
O padrão por trás dos números: impunidade como indicador antecedente
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Federação Internacional de Jornalistas (FIJ) convergem em três perguntas que governos e organismos multilaterais deixam sem resposta:
- Quem ordenou o assassinato?
- Quem planejou a execução?
- Quem é o responsável final?
Samira de Castro, presidente da Fenaj, resume: “o assassinato de qualquer jornalista é inaceitável”. Mas a ausência de investigações conclusivas cria um vácuo de accountability que investidores experientes leem como proxy de fragilidade do Estado de Direito.
Historicamente, picos de violência contra a imprensa antecedem deterioração de índices de liberdade econômica, quebra de contratos de concessão e restrições cambiais não anunciadas.
Tecnologia, assimetria e o novo cálculo de exposição
O relatório da ONU aponta que “novas tecnologias e armamentos estão transformando os riscos”. Traduzindo para linguagem de portfólio: a barreira de entrada para violência seletiva caiu. Um drone comercial modificado custa fração de um míssil e não deixa rastro balístico tradicional.
Isso afeta dois vetores de decisão:
- Due diligence em zonas de conflito: a presença de imprensa livre deixa de ser apenas “bom sinal” e passa a ser métrica de segurança operacional para equipes de campo.
- Seguros e resseguros: prêmios para cobertura de risco político em regiões com alta letalidade de jornalistas tendem a subir, mesmo sem declaração formal de guerra.
A assimetria informacional aumenta: quem controla a tecnologia de vigilância e ataque passa a ditar o que é reportável. Mercados odeiam assimetria não precificada.
O que observar daqui para frente
Três variáveis merecem monitoramento contínuo nos próximos trimestres: (1) resolução de casos emblemáticos de 2024-2025 — a taxa de elucidação dirá se a impunidade é tolerada ou combatida; (2) adoção de protocolos internacionais para uso de sistemas autônomos em áreas civis; (3) reação de bolsas e agências de rating a episódios de silenciamento midiático em economias emergentes.
Empresas com exposição a jurisdições onde a imprensa opera sob ameaça tecnológica devem incorporar cláusulas de força maior vinculadas a índices de liberdade de imprensa em contratos de longo prazo. Não é ativismo. É precificação de risco que o mercado ainda subestima.
