A Argentina está injetando capital no desenvolvimento de um reator nuclear brasileiro orçado em até R$ 6 bilhões, enquanto corre para inaugurar sua própria usina de 30 megawatts em 2027. O movimento expõe uma assimetria: Buenos Aires vira sócia financeira do vizinho, mas avança sozinha na construção de infraestrutura própria.
O acordo prevê aporte argentino em tecnologia e financiamento para o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto estratégico para produção de radiofármacos e pesquisa. Em contrapartida, o país vizinho consolida parcerias com os Estados Unidos para seu reator de pesquisa RA-10, com cronograma mais agressivo e menos dependência orçamentária.
O abismo entre cronogramas e caixas
Enquanto o RMB brasileiro patina na captação de recursos — com o BNDES ainda estruturando o modelo de financiamento —, a Argentina já tem 70% da construção do RA-10 concluída. A usina de 30 MW entrará em operação em 2027, segundo a Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA).
Dados oficiais mostram que o projeto argentino consumiu US$ 200 milhões até aqui, bancados majoritariamente pelo Tesouro local e linhas de crédito do BID. No Brasil, a estimativa de R$ 6 bilhões inclui infraestrutura, licenciamento e operação inicial, mas não há data firme para início das obras civis.
Por que a Argentina aposta no vizinho
A participação argentina no RMB não é filantropia. O país garante acesso a radioisótopos produzidos no reator brasileiro — insumo crítico para medicina nuclear que hoje importa majoritariamente do Canadá e da Europa. Com o RA-10 próprio, Buenos Aires reduzirá essa dependência, mas mantém a porta aberta para o mercado brasileiro, que consome 80% dos radiofármacos da região.
- Radiofármacos: Brasil importa 95% do molibdênio-99 usado em exames cardíacos e oncológicos.
- Mercado regional: América Latina movimenta US$ 1,2 bi/ano em medicina nuclear.
- Autonomia: RA-10 permitirá à Argentina cobrir 100% da demanda interna a partir de 2028.
O fator Estados Unidos muda o tabuleiro
A Argentina assinou em 2023 acordo de cooperação nuclear civil com Washington, abrindo caminho para transferência de tecnologia de reatores modulares pequenos (SMRs) e combustíveis de alto enriquecimento. O Brasil, apesar de parceiro histórico dos EUA no setor, não tem acordo equivalente vigente para tecnologias de última geração.
Essa diferença reflete-se no ritmo: a Argentina negocia com a INVAP (empresa estatal de tecnologia) a construção de um SMR de 27 MW para exportação, com financiamento do Exim Bank americano. O Brasil ainda debate marco regulatório para SMRs no Congresso.
O que observar nos próximos 18 meses
Três marcos definirão quem lidera a nova geopolítica nuclear sul-americana: a assinatura do contrato de financiamento do RMB com o BNDES (prevista para 1º semestre de 2025), a carga inicial de combustível no RA-10 argentino (agendada para março de 2026) e a votação do PL 2.634/2023, que cria a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear no Brasil. Quem chegar primeiro à operação comercial captura o mercado de radioisótopos da região — e dita as regras de cooperação tecnológica para as próximas décadas.
