Tecnologia

Câmera com IA multiplica multas por 28 em rodovia de SP; veja onde mais vigia

Câmera com inteligência artificial na rodovia Dom Pedro I em Campinas, SP, que multiplicou multas por 28
Equipamento de fiscalização inteligente na SP-065 registrou 3.157 infrações em cinco meses, 28 vezes mais que a média anterior.

Uma única câmera com inteligência artificial fez a média mensal de autuações saltar de 23 para 631 na rodovia Dom Pedro I, em Campinas. O aumento de 28 vezes expõe como a tecnologia tem transformado a fiscalização viária em São Paulo. Mas o impacto vai muito além do bolso do motorista.

Nos primeiros cinco meses de operação, o equipamento registrou 3.157 infrações no trecho urbano da SP-065. Para efeito de comparação, durante todo o ano de 2025, o mesmo ponto somou apenas 281 multas. O dado coloca em evidência comportamentos de risco que, até então, passavam despercebidos pela fiscalização convencional.

O que as lentes algoritmos estão pegando

Diferente dos radares tradicionais, focados em velocidade, essas câmeras “leem” a cena dentro do veículo. O sistema identifica automaticamente três alvos principais:

  • Ausência do cinto de segurança (motorista ou passageiros);
  • Uso de celular ou fones de ouvido ao volante;
  • Caminhões trafegando irregularmente pela faixa da esquerda.

Na Dom Pedro I, quase metade das multas (48%) mirou caminhoneiros na faixa errada. Outros 40% flagraram a falta do cinto. Para Murilo Perez, gerente de Operações da Rota das Bandeiras, os números revelam uma resistência cultural perigosa: “Afivelar o cinto é algo simples, habitual. O cinto salva vidas e evita lesões graves”.

Expansão silenciosa nas principais estradas

A tecnologia não parou em Campinas. Segundo a Artesp, quase 100 câmeras com IA já operam nas rodovias concedidas do estado. O mapa atual inclui trechos da Anhanguera (SP-330), Raposo Tavares (SP-270), Adhemar de Barros (SP-340) e o Rodoanel Mário Covas (SP-021), além de cidades como Ribeirão Preto, Araraquara, Franca e Presidente Prudente.

Na Raposo Tavares, duas câmeras entraram em ação em agosto nos quilômetros 17 e 18. No primeiro mês, o sistema gerou 2.316 alertas de possíveis infrações — 1.386 por cinto e 930 por celular. A Ecovias Raposo Castello ressalta que cada registro passa por verificação humana da Polícia Militar Rodoviária antes de virar multa efetiva.

Queda de acidentes e mudança de comportamento

O efeito colateral mais relevante aparece nos números de segurança. No trecho monitorado da Raposo Tavares (km 15 ao 20), os acidentes caíram 22% entre julho e agosto na comparação anual (67 contra 86). O mais impressionante: ocorrências com vítimas graves ou fatais despencaram 80%, de cinco para apenas uma.

Na pista Sul do Rodoanel, onde circulam 117 mil veículos/dia, uma câmera em teste mostrou outro sinal: os alertas diários caíram de 125 para 87 em quatro meses (junho a setembro), redução de 30,4%. Embora não seja possível atribuir a queda apenas à fiscalização, a hipótese de que motoristas mudam o hábito ao saberem que são vigiados ganha força.

Como funciona a esteira da autuação

O fluxo é desenhado para evitar erros automatizados:

  1. A câmera captura a imagem e o algoritmo sinaliza a suspeita;
  2. O alerta vai para o Centro de Controle Operacional da concessionária;
  3. Um policial rodoviário analisa o quadro e confirma (ou descarta) a infração;
  4. Só então a autuação é lavrada.

Ou seja, a IA faz a triagem em massa; o agente valida a punição. A PMRv reforça que o foco principal da rede vai além do trânsito: o reconhecimento de placas auxilia na recuperação de veículos roubados, clonados ou ligados a crimes.

O que observar daqui para frente

A concessionária da Dom Pedro I investiu cerca de R$ 50 mil no primeiro equipamento e já planeja mais três: dois entram em novembro e um quarto no início de 2027. Na Raposo Tavares e Castello Branco, novos pontos estão em estudo, sem datas definidas.

Para quem dirige profissionalmente ou gere frotas, a mensagem é clara: a “fiscalização invisível” deixou de ser promessa. O cinto e o celular fora do alcance das mãos deixaram de ser detalhes — viraram variáveis de custo direto e, mais importante, de sobrevivência. Acompanhar os editais de expansão da Artesp e da PMRv virou parte da gestão de risco logística.