Economia

Bolsa derrete 17,5%: Governo declara guerra ao mercado às vésperas do Copom

Gráfico de queda acentuada da B3 com fundo vermelho e silhueta do Palácio do Planalto
Bolsa cai 17,5% na pior semana do ano enquanto governo critica mercado financeiro

A Bolsa brasileira sofreu a pior semana do ano com queda de 17,5%, o maior tombo desde o início da pandemia, e a resposta do Planalto foi abrir uma frente de ataque direto contra o setor financeiro. Ministros e líderes do PT classificaram a reação dos ativos como “chantagem”, “terrorismo” e “especulação”, elevando a temperatura política justamente quando o Banco Central decide os rumos da Selic.

A ofensiva não é retórica vazia: ela sinaliza uma disposição para o confronto que pode ditar o preço do crédito e do câmbio nos próximos meses. Entender quem fala pelo governo na economia virou questão de sobrevivência para quem gere capital.

O tombo histórico e a narrativa do “terrorismo”

O Ibovespa, que beirava os 200 mil pontos históricos, devolveu ganhos de meses em cinco sessões. A desvalorização brutalmente rápida serviu de gatilho para uma ação coordenada. O senador eleito Rui Costa abriu os trabalhos comparando formadores de mercado a donos de obra que manipulam o preço do asfalto para faturar mais.

Na sequência, o ministro Guilherme Boulos foi além: chamou o debate do ajuste fiscal de “chantagem” contra a vontade popular e mirou cortes em supersalários, desonerações e emendas parlamentares, não no “lombo dos mais pobres”. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, endossou o tom ao acusar analistas de confundir “interesse de rentistas com racionalidade econômica”.

Por que o seu custo de capital pode subir amanhã

Para o investidor, o ruído político tem tradução imediata em prêmio de risco. A curva de juros futuros esticou, o dólar ganhou tração e a percepção de solvência fiscal se deteriorou. Não é apenas volatilidade: é a precificação de uma incerteza sobre qual âncora fiscal valerá daqui a seis meses.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, precisou ir a público negar tabelamento de juros — rumor que nasceu da própria instabilidade gerada pelas falas políticas. O presidente do PT, Edinho Silva, tentou conter danos ao afirmar que só Durigan fala pela política econômica, mas a cacofonia persiste.

A disputa invisível: fiscal, juros e a autonomia do BC

Por trás da guerra de narrativas, há uma divergência técnica profunda. O governo argumenta que a Selic a 13,75% estrangula o crescimento, alimenta a inadimplência recorde e quebra varejistas. O mercado, por sua vez, vê câmbio fraco, expectativas de inflação desancoradas e ausência de sinalização crível de contenção de despesas.

Lula reforçou a crítica à autonomia do Banco Central, defendendo que o Presidente deve ditar a política monetária. A lei de 2021, porém, blindou a diretoria com mandatos não coincidentes justamente para evitar essa ingerência. O cabo de guerra é institucional.

Quarta-feira decisiva: o que o Copom deve sinalizar

O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na quarta-feira (4) com a faca e o queijo na mão. A aposta majoritária dos economistas é a interrupção do ciclo de cortes iniciado em março. Manter a taxa em 13,75% seria a resposta técnica ao choque de expectativas; subir juros, porém, daria munição política ao discurso de “chantagem”.

  • Cenário base: Selic parada em 13,75% com comunicado duro sobre ancoragem fiscal.
  • Risco altista: Alta de 0,25 p.p. se o comunicado for interpretado como brando.
  • Sinal político: Qualquer menção a “harmonia entre políticas” será lida como recuo.

O que observar daqui para frente

O fechamento desta semana não encerra o capítulo; define o enredo do próximo trimestre. Acompanhe três variáveis que ditam o jogo: a tramitação do arcabouço fiscal no Congresso, a posse dos novos diretores do BC em 2024 e a execução orçamentária de janeiro. Se o governo entregar superávit primário crível, a guerra de narrativas perde força e o juro cai. Se o discurso de “chantagem” substituir a caneta na tesoura de gastos, o prêmio de risco veio para ficar — e a conta chega no balanço de toda empresa endividada em real.