Uma gestora com R$ 3 bilhões sob administração aposta que a redução da jornada semanal vai acelerar a migração do varejo para o digital. O impacto direto? Uma corrida por espaço de armazenagem que pode reconfigurar o mapa imobiliário do país.
O cálculo parte de uma premissa simples: menos horas de trabalho no comércio físico empurram o investimento para canais que não dependem de equipes presenciais extensas.
Por que o varejo físico perde fôlego
A proposta que tramita no Congresso prevê a transição das atuais 44 horas para 40 horas semanais. Para redes que operam lojas de rua e shopping, isso significa custos adicionais com contratações ou horas extras — justamente num momento de margens comprimidas.
Renato Monteiro, fundador da Sort Investimentos, resume a dinâmica: não haverá necessariamente fechamento de pontos físicos, mas uma realocação de capital. O dinheiro que iria para reformas ou novas unidades tende a migrar para centros de distribuição e automação.
O modelo que ganha escala
O e-commerce permite concentrar estoques em poucos hubs estratégicos. De lá, pedidos de múltiplas regiões são processados com mão de obra enxuta e alta tecnologia. É essa eficiência que explica a projeção de alta de 30% na demanda por galpões.
Três fatores tornam o movimento quase irreversível:
- Automação de separação e expedição reduz dependência de turnos longos
- Um único CD atende raio de centenas de quilômetros
- Custo por metro quadrado logístico segue inferior ao varejo de rua nas capitais
Onde a demanda deve concentrar
Regiões metropolitanas com boa malha viária e proximidade de portos ou aeroportos lideram a preferência. O interior de São Paulo, o eixo Campinas–Jundiaí e a Grande Curitiba já registram taxa de vacância próxima de zero em galpões de alto padrão — os chamados triple-A.
Mas o efeito não fica restrito aos grandes centros. Cidades secundárias com custo de terra mais baixo começam a entrar no radar de fundos imobiliários e incorporadoras.
O que observar nos próximos trimestres
A aprovação da nova jornada ainda depende de votação no Senado e sanção presidencial. Enquanto o legislativo avança, três indicadores antecipam o ritmo real da mudança: volume de novos contratos de locação assinados por varejistas omnicanal, taxa de captação de fundos imobiliários de logística e volume de lançamentos de galpões especulativos.
Se a projeção de 30% se confirmar, o déficit atual de área logística de qualidade — estimado em mais de 2 milhões de metros quadrados — vai pressionar aluguéis e acelerar novos desenvolvimentos. Quem antecipar posições nesse tabuleiro tende a capturar a valorização antes que o mercado inteiro reaja.
