Gernot Döllner, CEO da Audi, subiu ao palco de um comício de Donald Trump na Geórgia e anunciou uma fábrica de US$ 4 bilhões para produzir SUVs de luxo. O gesto violou o código de neutralidade política da empresa e detonou uma rebelião interna que pode custar o cargo do executivo.
A montadora alemã não tem fábrica nos EUA — ao contrário de Mercedes e BMW — e as tarifas de Trump tornaram a produção local uma questão de sobrevivência comercial. Mas o preço político da aparição ao lado do ex-presidente está saindo mais caro que o investimento.
O palco virou armadilha
O evento em Perry, Geórgia, no sábado (24), foi encenado: um Q9 dourado na entrada, mais de um minuto de microfone cedido por Trump, promessa de 4.500 empregos a partir de 2030. Döllner justificou depois: “Quando o presidente americano convida, você aceita”.
O manual de conduta da Audi, revisado este ano e assinado pelo próprio CEO, exige neutralidade política em eleições. Exceções exigem aprovação prévia da diretoria. O conselho de trabalhadores foi avisado com menos de 48 horas de antecedência, segundo o Frankfurter Allgemeine Zeitung.
Rebelião no coração da Volkswagen
A reação foi imediata e transversal:
- Daniela Cavallo, representante dos trabalhadores no Conselho do Grupo VW: Döllner deveria “se envergonhar profundamente” por se associar a discursos de “racismo, sexismo, xenofobia, transfobia e desprezo pela democracia”.
- Christian Benner, chefe do IG Metall (maior sindicato alemão): conduta “constrangedora”.
- Olaf Lies, governador da Baixa Saxônia e membro do Conselho da VW: “Evento de campanha não é lugar para anunciar investimentos”.
- Carsten Schneider, ministro do Meio Ambiente: “A Audi aposta no cavalo morto” — referindo-se a SUVs a combustão enquanto o mundo eletrifica.
Pedidos de renúncia circularam nos corredores de Ingolstadt. Döllner enviou carta aos funcionários admitindo “questionamentos e incompreensão”, mas defendeu o projeto voltado ao segundo maior mercado premium do mundo — a China é o primeiro.
O pragmatismo por trás do gesto
A Audi planeja fechar a fábrica de Neckarsulm (berço dos modelos topo de linha) até 2030, cortando ao menos 15 mil vagas. Três anos atrás, Döllner já havia encerrado a planta na Bélgica e demitido 7.500 na sede. Até o comício, era visto como o gestor que melhor navegava a relação com sindicatos e conselhos de fábrica — poderosos na governança da VW.
Sem produção nos EUA, a marca perde competitividade frente a tarifas que tornam importados inviáveis. O Wall Street Journal relata que a equipe de Trump acenou com benefícios tarifários durante as negociações das últimas semanas. O anúncio no palanque selou o acordo publicamente.
A aposta no Q9 e o risco climático
O modelo central do plano é o Q9: 5,31 m de comprimento, 2,21 m de largura, posicionado para o gosto americano por SUVs grandes a combustão. Schneider aponta a contradição: enquanto a Europa acelera a eletromobilidade, a Audi destina US$ 4 bilhões (R$ 20,1 bilhões) a uma plataforma fóssil com produção prevista para 2030.
Trump cortou subsídios a elétricos, derrubou limites de emissão e defende petróleo. Mas uma nova administração pode reverter tudo antes da primeira unidade sair da linha de montagem em Macon.
O que observar daqui para frente
O mesmo Conselho que critica Döllner hoje precisará votar a aprovação da fábrica na Geórgia. A sobrevivência do CEO depende de provar que o retorno financeiro justifica o custo reputacional — e de convencer sindicatos de que empregos na Alemanha não serão sacrificados pela expansão americana.
Três variáveis definem o desfecho: a votação no Conselho de Supervisão nos próximos meses, a evolução das tarifas EUA-Europa e a durabilidade da agenda energética de Trump. Se a política americana virar em 2028, a Audi terá uma fábrica de SUVs a combustão num mercado que pode não mais existir.
