Meio Ambiente

Multa de R$ 890 mil: o risco invisível que ronda o agronegócio em Goiás…

Fiscalização do Ibama em lavoura de milho transgênico na zona de amortecimento do Parque Nacional das Emas, Goiás
Operação flagra 645 hectares de milho transgênico irregular no sudoeste goiano, resultando em R$ 890 mil em multas.

O Ibama e o ICMBio aplicaram R$ 890 mil em multas a produtores rurais flagrados com milho transgênico na zona de amortecimento do Parque Nacional das Emas. A infração atinge 645 hectares e expõe uma falha de compliance que pode custar caro a qualquer operação na região. Entender os limites legais deixou de ser burocracia para virar questão de sobrevivência financeira.

O que a fiscalização encontrou no sudoeste goiano

Entre 13 e 23 de outubro, 38 vistorias mapearam lavouras irregulares em propriedades que somam 11,39% de toda a faixa de proteção do parque. Três autos de infração foram lavrados, totalizando a multa de quase R$ 900 mil. Nenhuma irregularidade foi achada dentro da unidade de conservação propriamente dita, mas o entorno está sob lupa.

Os nomes dos autuados não foram revelados, o que impede a defesa pública imediata. Para o mercado, porém, o recado é claro: a tolerância para Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) nessa região é zero, respaldada pela Lei 11.460/2007 e pelo Decreto 5.950/2006.

Por que a zona de amortecimento virou alvo prioritário

A legislação proíbe pesquisa e cultivo de transgênicos em unidades de conservação e terras indígenas, exceto em APAs. O decreto vai além: cria restrições específicas nas áreas vizinhas. O objetivo técnico é evitar a contaminação genética silenciosa — fluxo de pólen para espécies nativas — e proteger a fauna entomológica, como insetos polinizadores e predadores naturais de pragas.

Os riscos listados pelos órgãos ambientais vão além da multa imediata:

  • Transferência de genes para parentes silvestres do milho;
  • Desenvolvimento de resistência a inseticidas e herbicidas;
  • Surgimento de “superpragas” de difícil controle;
  • Impacto em organismos não-alvo essenciais ao equilíbrio ecológico local.

O impacto direto no balanço da fazenda

Para o empresário do campo, a equação mudou. A zona de amortecimento não é terra de ninguém; ela tem dono, matrícula e, agora, fiscalização saturada. Plantar transgênico ali não é apenas uma infração administrativa — é um passivo contingente que afeta valuation, acesso a crédito verde e certificações de mercado (como soja e milho livres de desmatamento ou OGMs em áreas sensíveis).

Uma autuação desse porte entra no radar de due diligence de fundos, tradings e bancos. O custo da multa é apenas a ponta do iceberg; o bloqueio de linhas de financiamento sustentável costuma doer mais no fluxo de caixa.

O que muda na estratégia de ocupação da região

A operação sinaliza que o monitoramento por satélite e as vistorias in loco tornaram-se rotina, não exceção. Produtores que operam nos 18 municípios do entorno do Parque das Emas precisam auditar suas áreas imediatamente. A pergunta chave: o seu georreferenciamento respeita os limites da zona de amortecimento oficial?

Muitas vezes, a sobreposição ocorre por erro de base cartográfica ou desconhecimento da poligonal atualizada do decreto. Corrigir isso antes da visita do fiscal é infinitamente mais barato que advogados e multas retroativas.

O que observar daqui para frente

A tendência é de endurecimento. O marco legal da biodiversidade e as metas do Acordo de Kunming-Montreal pressionam o Brasil a mostrar resultados em conservação in situ. Para o agronegócio goiano, a lição prática: invista em mapeamento preciso (CAR validado), consulte a poligonal da zona de amortecimento no site do ICMBio e, se houver dúvida, opte por variedades convencionais ou edite o plano de manejo da propriedade. A multa de R$ 890 mil foi o recado; a próxima pode vir com embargo de área ou suspensão de licenças.