Economia

O segredo que o título do Cruzeiro expõe: a Conmebol está deixando dinheiro na mesa

Jogadoras do Cruzeiro comemoram título da Libertadores Feminina 2024 em Quito após vitória nos pênaltis contra Corinthians
Cruzeiro celebra conquista histórica da primeira Libertadores Feminina em final dramática contra o Corinthians em Quito.

O Cruzeiro conquistou sua primeira Libertadores Feminina em uma virada histórica contra o tetracampeão Corinthians, mas o placar de 4 a 4 nos pênaltis esconde uma discrepância financeira gritante. A final em Quito não foi apenas um jogo épico; foi a prova cabal de que a entidade que comanda o futebol sul-americano subfinancia o ativo que mais cresce no portfólio.

Disputada a 2.850 metros de altitude, com seis partidas em 16 dias e gramados castigados, a decisão expôs o abismo entre a entrega das atletas e a estrutura oferecida. Se com tão pouco o produto atrai essa atenção, o retorno sobre investimento potencial assusta pela magnitude.

O jogo que quebrou todos os protocolos

O roteiro beira o impossível: Corinthians abrindo 3 a 0 com dois gols de Gabi Zanotti nos primeiros minutos do segundo tempo. O Cruzeiro, estreante no torneio, buscou o empate aos 45 minutos, forçou os pênaltis e venceu nas alternadas após defesas decisivas de Camila Rodrigues. Foi a primeira vez na história de finais únicas — masculinas ou femininas — que um time reverteu uma desvantagem de três gols para levantar a taça.

O contexto físico, porém, é o dado que interessa ao olhar de negócios. As atletas atuaram exauridas, em estádios vazios, sem a logística mínima de recuperação. Ainda assim, entregaram oito gols e uma narrativa que prendeu o público até o último chute.

A matemática que não fecha para a Conmebol

Enquanto a entidade celebra o “sucesso” da competição, os números revelam uma assimetria difícil de justificar comercialmente. A premiação ao campeão feminino foi de US$ 2 milhões. Na versão masculina, o vencedor embolsa US$ 25 milhões — doze vezes mais.

A disparidade não para no cheque. Veja a estrutura comparativa oferecida às equipes:

  • Calendário: Homens jogam a Libertadores ao longo de quase um ano; mulheres resolvem em duas semanas.
  • Preparação: Finalistas masculinos têm semanas de treino tático; as mulheres tiveram três dias entre a semi e a final.
  • Local: Sede única em país neutro (Equador), sem torcida mandante, versus jogos de ida e volta com receita de bilheteria.
  • Infraestrutura: Gramados reportados como “maltratados” para a elite feminina.

Por que o “pouco” entregou “tanto”

A audiência e o engajamento gerados por essa final — amplificados pelo drama esportivo — provam que o produto tem apelo intrínseco. O futebol feminino é, segundo a própria Fifa, a modalidade que mais cresce no planeta. A Conmebol sedia a próxima Copa do Mundo Feminina em 2027, no Brasil.

Investir na base do torneio agora não é filantropia; é antecipação de valor. Clubes que profissionalizaram seus departamentos femininos (caso do próprio Cruzeiro e do Corinthians) colhem resultados esportivos e de marca. A entidade, porém, mantém o gargalo na distribuição de receitas e no formato da competição.

O que observar daqui para frente

A pressão por isonomia deve migrar do discurso para a planilha. Três vetores mudam o jogo nos próximos ciclos:

  • Revisão do prize money: Aumento escalonado para reduzir o gap de 12x, atraindo mais clubes a investir em elenco.
  • Formato alongado: Transição para fase de grupos e mata-mata semanais, gerando mais datas de TV/sponsor e receita de bilheteria para mandantes.
  • Licenciamento centralizado: Venda unificada de direitos de transmissão e patrocínio “naming rights” do torneio feminino, separado do masculino.

Para investidores e gestores, o sinal é claro: o ativo está subprecificado. Quem estruturar operação, base de fãs e captação de patrocínio antes que a Conmebol corrija o curso, captura a maior fatia da valorização. O título do Cruzeiro não fecha um ciclo; abre a janela de oportunidade.