Pelo menos cinco grupos empresariais — entre estrangeiros e nacionais — já se movimentam para abocanhar fatias do mercado de urânio e energia nuclear no Brasil. A corrida acontece nos bastidores enquanto o governo federal atrasa o decreto que vai regulamentar parcerias privadas com a INB (Indústrias Nucleares do Brasil), detentora do monopólio da exploração. Quem chegar primeiro, leva a vantagem geológica.
Uma lei de dezembro de 2022 abriu a brecha legal, mas as regras práticas não saíram do papel. O vácuo regulatório não impediu que gigantes como a estatal russa Rosatom, mineradoras australianas listadas em bolsa e uma operação nuclear dos EUA firmassem posição. O tabuleiro envolve ex-ministros do governo anterior, tecnologia de micro-reatores e a promessa de fechar o ciclo do combustível no país.
Os jogadores e suas fichas
O grupo brasileiro Diamante montou a estrutura mais complexa. Criou a NBEPar em 2024 para abrigar os negócios nucleares e trouxe dois pesos-pesados da gestão Bolsonaro: Bento Albuquerque (ex-ministro de Minas e Energia) preside o conselho; Ney Zanella (ex-presidente da ENBPar) comanda a operação. A jogada mestra foi a joint venture Nadina Minerals com a Uranium One, braço da Rosatom.
A parceria prevê trazer ao Brasil a tecnologia de lixiviação in situ — injeção de soluções químicas no subsolo para dissolver e extrair o urânio sem lavra a céu aberto. Em maio, a comitiva, que incluía Pedro Kassab (vice da Diamante e sobrinho de Gilberto Kassab), visitou uma unidade de concentrado na Rússia para validar o processo.
Não para na mineração. Via Terminus, a Diamante desenvolve um microrreator nuclear com apoio da Finep e universidades. A aposta é verticalizar: da mina à geração de eletricidade.
Australianos na dianteira territorial
Enquanto a Diamante articula tecnologia, australianas garantem área. A Atlas Critical Minerals (sede em BH, ações na Nasdaq) declarou posse de 39 processos minerários com potencial uranífero: 143,7 mil hectares. A estratégia, assumida em comunicado ao mercado, é “antecipar potenciais mudanças legislativas”.
A Core Energy Minerals foca em três projetos: Amorinópolis (GO), São José (PB) e Grande (RS). Somados, os projetos gaúcho e goiano ultrapassam 680 km². A companhia já faz reconhecimento geológico, coleta de amostras e radiometria em campo.
Já a BRE (Brazilian Rare Earths) mira o subproduto. No projeto Monte Alto (BA), o urânio vem “de carona” nas terras raras. A meta é produzir yellowcake (concentrado). O estudo preliminar projeta média de 466 toneladas/ano, pico de 540 t/ano nos primeiros cinco anos. A segunda etapa da planta piloto, com testes de recuperação, está prevista para o 2º trimestre de 2027.
O elo perdido da cadeia nacional
Hoje, o Brasil extrai em Caetité (BA) e fabrica combustível em Resende (RJ). No meio, falta capacidade. A INB exporta concentrado para conversão em gás e enriquecimento parcial no exterior. O material volta como pó para virar pastilha. Fechar esse ciclo — conversão e enriquecimento plenos — é o “Santo Graal” que atrairia soberania e valor agregado.
- Extração: Caetité (INB) — único ativo produtor hoje.
- Conversão/Enriquecimento: Dependência externa (Urenco, Converdyn, etc.).
- Fabricação: Resende (INB) — pastilhas e elementos combustíveis para Angra 1 e 2.
A parceria com a Galvani em Itataia (CE) — fosfato para eles, urânio para INB — é o único modelo ativo de coprodução. Prevê 2.300 t/ano de concentrado, mas travou no licenciamento.
O decreto que não sai e o relógio do BNDES
O ministro Alexandre Silveira prometeu nova política nuclear para 2025 e debate público em 2026. Não houve nem um nem outro. Em fevereiro, o MME disse que o decreto das parcerias estava “em fase final” para a Casa Civil. Em agosto, seguia “em discussão entre áreas técnicas”. A Casa Civil confirma: “articulação com o MME, avaliação de aspectos regulatórios, econômicos e estratégicos”.
Enquanto o Palácio do Planalto hesita, o BNDES contratou consórcio para modelar os negócios. Entrega dos estudos: 2º trimestre de 2027. Só depois ENBPar e INB definem o modelo e lançam a seleção de parceiros. Ou seja: a porteira para investimento privado estruturado só abre daqui a dois anos — no melhor cenário.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o ritmo real: a publicação do decreto (que define risco jurídico), o desfecho da sociedade Rosatom-Diamante (teste geopolítico sensível) e a viabilidade econômica da lixiviação in situ no geologia brasileira. O leilão de áreas da ANM, se houver, será o termômetro de preço. Quem tem caixa para esperar 2027 sem garantia de retorno? A resposta separa especuladores de construtores de ativos.
