Cultura

O segredo do grande vinho: dois mestres, verdades que ninguém conta…

Dois enólogos lendários Nauro Morbini e Santiago Achaval degustando vinho em vinícola
Morbini e Achával: 75 safras de experiência e filosofias opostas sobre o grande vinho

Dois enólogos lendários somam mais de 75 safras e chegam a conclusões opostas sobre o que eleva um rótulo à categoria de “grande vinho”. Um persegue a precisão técnica absoluta; o outro, a emoção que escapa à análise. A resposta pode mudar como você escolhe a próxima garrafa.

Nauro Morbini, da cooperativa Aurora, e Santiago Achával, da argentina Matervini, não discordam sobre qualidade. Discordam sobre onde ela mora.

Cinquenta safras e a busca pela perfeição técnica

Morbini carrega o sotaque da Serra Gaúcha e cinco décadas de vindimas. Desde 1991, comanda o Millésime, o projeto mais ambicioso da Aurora: um Cabernet Sauvignon só feito em anos considerados ideais. A safra 2020 acaba de chegar ao mercado.

O método dele é cirúrgico. Uvas perfeitas, fermentação controlada, estágio em madeira nova e tempo de garrafa. O resultado no copo entrega corpo, taninos macios porém presentes, acidez equilibrada e tipicidade varietal. Ainda está fechado — Morbini admite que cinco anos de adega farão bem.

Na prática, é um vinho que “tica todas as caixinhas” da enologia clássica. E custa menos de R$ 300 no site da cooperativa.

O preço da excelência: vale o investimento?

Para quem busca referências de alto nível sem sair do Brasil, a equação é direta:

  • Millésime 2020 (Cabernet Sauvignon): ~R$ 300 — topo de gama, guarda longa
  • Procedências Nature (Chardonnay): R$ 64 — espumante não dosado, acidez vibrante
  • Pinto Bandeira Extra Brut (corte Chardonnay, Pinot Noir, Riesling Itálico): R$ 104 — complexidade por fração do preço

São rótulos que competem com importados na faixa dos R$ 400–600. Mas Morbini alerta: a enologia brasileira ainda tem apenas uma safra por ano para acertar. Em 50 anos, ele teve 50 chances. Cada uma, irrepetível.

Quando a enologia vira poesia: a visão argentina

Santiago Achával trilhou caminho distinto. Pioneiro da viticultura de altitude em Paraje Altamira, no Valle de Uco, acumula 25 vindimas. Hoje, à frente da Matervini e do projeto Ferroga no condomínio The Vines of Mendoza, em Los Chacayes, ele reduz a enologia a duas decisões: hora da colheita e tempo de prensa. O resto, diz, é “ser babá das leveduras”.

Para Achával, um grande vinho transcende a soma de atributos mensuráveis. Corpo, cor, taninos, persistência — tudo isso atesta qualidade, não grandeza. A grandeza mora na emoção que o líquido provoca. Ele cita um Poulsard de Overnoy-Houillon, antigo, etéreo, quase sem corpo, que o marcou mais que qualquer “vinho perfeito” tecnicamente.

O Ferroga 2023 (Malbec/Cabernet Franc) é excelente, admite. Ainda não é grande. Mas ele está determinado a chegar lá.

Duas verdades, um mesmo vinhedo

Morbini busca dominar as variáveis. Achával, aceitar que as variáveis o dominam. O primeiro quer repetir a excelência; o segundo, capturar o irrepetível. Não há vencedor — há perfis de apreciador.

Se sua definição de “grande vinho” passa por consistência, estrutura e previsibilidade de evolução, o caminho brasileiro de Morbini entrega. Se você persegue o momento em que o vinho cala a conversa à mesa, a filosofia de Achával aponta para garrafas que desafiam fichas técnicas.

O que observar nas próximas safras

A safra 2024 no Brasil e na Argentina já está em garrafa ou barrica. Acompanhe três sinais: como o clima alterou a acidez natural das uvas (dado decisivo para guarda), se cooperativas como a Aurora mantêm o rigor seletivo do Millésime em anos menos generosos, e se projetos de altitude como Los Chacayes consolidam identidade própria além da variedade. O próximo “grande vinho” pode nascer onde a técnica encontra a intuição — ou onde uma das duas decide abrir mão do controle.