Justiça

Vertex vence na Justiça e vai produzir gasolina em 2027: o que está em jogo

Planta industrial da Vertex Formuladora em Sorocaba SP para produção de gasolina
Fábrica da Vertex em Sorocaba iniciará produção de gasolina em 2027 após vitória judicial contra ANP.

A Vertex Formuladora obteve autorização judicial para iniciar a produção de gasolina em Sorocaba (SP) no início de 2027, desafiando a suspensão da atividade pela ANP. A decisão reacende o debate sobre os riscos fiscais e concorrenciais da formulação de combustíveis no Brasil.

A planta, orçada em R$ 60 milhões, já está em fase de comissionamento. Mas a batalha regulatória está longe do fim — e o desfecho pode redesenhar o mercado.

Como uma liminar derrubou a proibição da ANP

Em julho de 2025, a diretoria da Agência Nacional do Petróleo suspendeu a formulação — processo que mistura correntes de hidrocarbonetos como a nafta para produzir gasolina. O motivo: investigações como a Operação Carbono Oculto expuseram fraudes fiscais generalizadas no setor.

Um estudo técnico da própria agência concluiu que os benefícios para o abastecimento são “muito baixos” e os custos fiscais, “muito altos”. A última formuladora ativa, a Copape, teve a autorização cassada em 2024 após infrações sucessivas.

A Vertex, no entanto, argumentou que protocolou o pedido de licença em julho de 2024 — antes da suspensão. A 3ª Vara Federal de Sorocaba determinou que a ANP continuasse a análise. Em setembro, o desembargador Luiz Alberto de Souza Ribeiro, do TRF-3, deu cinco dias para a emissão de uma autorização provisória.

Números da operação: o tamanho da aposta

A estrutura já erguida às margens da Castelo Branco revela a escala do projeto:

  • Investimento total: R$ 60 milhões
  • Capacidade de armazenagem: 35 milhões de litros (13 tanques)
  • Produção autorizada: ~100 milhões de litros/mês
  • Participação na produção nacional: 0,05%
  • Prazo para produção máxima: até 12 meses após a partida

O diretor-geral Daniel Kurtinaitis confirma que a empresa já contrata pessoal e testa equipamentos. O plano estratégico prevê ampliar a tancagem para 65 milhões de litros, instalar usina solar e, no futuro, construir uma unidade de refino no mesmo local.

Por que o setor contesta a volta da formulação

O Instituto Combustível Legal (ICL), financiado por grandes produtoras e distribuidoras, classifica a formulação como “vulnerabilidade regulatória”. A entidade alerta para três riscos principais:

  • Facilitação de fraudes fiscais pela dificuldade de rastrear a origem dos insumos
  • Fiscalização mais complexa sobre a qualidade do produto final
  • Distorção competitiva: autorizações judiciais individuais criam assimetrias enquanto a regra geral está suspensa

“Autorizações concedidas por decisões judiciais individuais, em meio a um processo de revisão regulatória, podem ampliar a insegurança jurídica”, diz a nota técnica do instituto.

O contra-argumento da Vertex e o precedente internacional

Kurtinaitis rebate: refinarias e centrais petroquímicas já utilizam a técnica no Brasil e no exterior. “O processo de formulação é comum no mercado nacional e internacional”, afirma. A empresa sustenta que cumpriu todos os ritos administrativos antes da mudança de regras.

A ANP, por meio da AGU, recorreu da decisão. Se a Justiça reverter o entendimento, a autorização provisória será revista — o que jogaria o investimento de R$ 60 milhões em limbo regulatório.

O que observar nos próximos meses

Três variáveis definirão se a Vertex efetivamente entra no mercado ou se torna um caso simbólico de judicialização regulatória:

  • Recurso da ANP no TRF-3: se a liminar cair, a planta para antes de começar
  • Revisão normativa da agência: o estudo que recomenda o fim da atividade pode virar resolução
  • Reação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade): eventuais questionamentos sobre concorrência desleal

Para investidores e players do setor, o caso funciona como termômetro: a segurança jurídica no downstream de combustíveis depende, hoje, mais de decisões monocráticas do que de regras estáveis. Acompanhar o desfecho desse processo é essencial para precificar risco regulatório em qualquer aposta no refino ou na logística de combustíveis no Brasil.