Economia

O segredo do mercado: por que quem passou dos 40 virou a “nova força” das contratações…

Grupo diverso de profissionais 40+ trabalhando em escritório moderno, representando nova força de trabalho no Brasil
Trabalhadores com 40 anos ou mais já ocupam 47,8% das vagas formais no país, segundo dados recentes.

Trabalhadores com 40 anos ou mais já ocupam 47,8% das vagas formais do país — um salto de 3,4 pontos percentuais em apenas quatro anos. O número expõe uma transformação silenciosa que atinge custos, produtividade e a própria sobrevivência dos negócios. O que está por trás dessa virada?

A resposta não está apenas na demografia. Há um jogo de forças entre escassez de mão de obra jovem, rotatividade recorde e uma geração 40+ que recusa a aposentadoria precoce. Entender essa dinâmica virou questão estratégica para quem contrata e para quem investe.

O retrato numérico que ninguém ignora

Dados da Rais mostram que o estoque de empregados formais com 40+ saltou de 44,4% (2022) para 47,8% (2025). No mesmo período, a população nessa faixa cresceu 7%, chegando a 92,2 milhões de pessoas, enquanto os brasileiros com até 39 anos encolheram 2,5%, para 158 milhões, segundo o IBGE.

A idade mediana do trabalhador formal já ultrapassou os 40 anos. “O mercado de trabalho tende a ser reflexo de muitas questões estruturais no Brasil, inclusive a demografia”, resume Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence.

Mas a composição etária explica só parte da história. Jovens estão estudando mais e entrando depois no mercado, amparados por benefícios sociais. Do outro lado, quem passou dos 40 vive mais tempo com saúde e precisa — ou quer — seguir ativo.

Quando a experiência vira diferencial competitivo

Edilson da Hora, 44, mestre de obras em Santo André (SP), não esconde a preferência: “Profissionais mais velhos são mais comprometidos”. Ele vê a construção civil perder atratividade entre os jovens justamente pelo esforço físico exigido.

Luciana Kubo, 56, prova a tese na prática. Após 20 anos fora do mercado formal — criou três filhos e administrou um e-commerce que faturava R$ 300 mil ao ano —, ouviu o medo interno: “Quem vai empregar uma mulher de 51 anos?”. Em meses, foi contratada no administrativo de uma construtora e hoje atua como fiscal de obras.

Paula Ribeiro, 42, trocou Macaé (RJ) por Carangola (MG) para assumir uma gerência de RH em empresa de tecnologia para o agronegócio. “Estava engessada, achava que minha carreira tinha acabado. Hoje vejo empresas preferindo gente madura, desde que esteja reciclada e antenada”, conta.

A rotatividade oculta que assusta os gestores

O Caged revela um paradoxo: admissões de 40+ dispararam 32% nos oito primeiros meses de 2026 frente a 2022 — quase o dobro da alta média do mercado (19%). Só que demissões nessa faixa subiram 40%, contra 27,4% no total.

Duas forças explicam o vai-e-vem:

  • Escassez jovem + rotatividade alta: 38,9% dos desligamentos de até 39 anos são a pedido; entre 40+, o índice cai a 32%.
  • Custo de troca: Jovens costumam não ser provedores principais e valorizam flexibilidade — o que encurta a permanência.

“Supermercados contratam 50+ porque sabem que ficam”, ilustra Janaína Feijó, pesquisadora do FGV Ibre. “O jovem tem menor custo de troca e maior valorização de equilíbrio vida-trabalho.”

O alvo dos cortes de custo e o enxugamento da gestão

Salários mais altos colocam os 40+ na mira quando o aperto chega. “Essa faixa vira alvo quase preferencial: economia alta sem o conflito político de cortar a cúpula”, explica Alexandre Pellaes, professor da Fundação Dom Cabral e pesquisador de futuro do trabalho.

A segunda onda vem da reestruturação organizacional: camadas intermediárias de supervisão e coordenação — justamente onde se concentram profissionais maduros — estão sendo eliminadas em nome de processos “ágeis e quase autogerenciáveis”.

O que observar daqui para frente

O envelhecimento da força de trabalho não é opcional — é aritmética. A população economicamente ativa vai encolher e o país precisará “fazer mais com menos gente”, alerta Feijó. Três movimentos merecem radar:

  • Capacitação acelerada de jovens: sem ela, o gap de produtividade vira freio ao PIB.
  • Modelos de retenção híbridos: flexibilidade para atrair juniores; propósito e estabilidade para segurar seniores.
  • Requalificação contínua: a “reciclagem” citada por Paula Ribeiro deixa de ser benefício e vira requisito de empregabilidade pós-40.

Quem antecipar essa equação — custo, experiência, rotatividade e demografia — vai ditar o ritmo do mercado nos próximos anos. Os outros apenas assistirão à virada.