O ministro da Fazenda, Dario Durigan, descartou neste domingo (1º) qualquer discussão sobre tabelamento da taxa Selic no Palácio do Planalto. A declaração tenta conter a onda de especulações que tomou conta do mercado financeiro nos últimos dias, mas a apreensão dos investidores não desapareceu por decreto.
A negativa oficial veio após a divulgação de que integrantes do governo tentavam agendar uma reunião entre Lula e o economista André Lara Resende, defensor de um teto para os juros atrelado ao crescimento do PIB. O movimento gerou ruído imediato entre agentes de mercado.
O que está por trás da proposta de Lara Resende
O economista, um dos pais do Plano Real, sustenta há anos que o nó fiscal brasileiro está nos juros, não no gasto primário. Sua tese: a Selic elevada faz a dívida crescer mais rápido que a economia consegue gerar riqueza.
Em artigo recente, Resende propõe que o Banco Central se comprometa a manter a taxa básica entre a meta de inflação (3%) e o crescimento nominal potencial do PIB (estimado em 5,5%). Na prática, isso significaria uma redução gradual da Selic — hoje em 13,75% — para 7,5% ao longo de 12 meses.
O plano prevê ainda a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional, com metas conjuntas para horizonte de quatro a cinco anos. Uma mudança estrutural na arquitetura de política econômica do país.
Reações no governo e no mercado
A equipe econômica se movimentou rápido para apagar o incêndio. Além de Durigan, Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, confirmou que não há encontro agendado com Resende nem discussão interna sobre a proposta.
- Dívida bruta atual: 82,9% do PIB — maior nível desde 2021
- Ajuste necessário (estimativa): ao menos R$ 250 bilhões em quatro anos
- Selic hoje: 13,75% ao ano, em dois dígitos desde 2022
O presidente do PT, Edinho Silva, foi enfático: apenas Durigan fala em nome do governo na política econômica. Classificou as especulações como “jogo dos especuladores” que apostam contra o país.
O ruído que não some com desmentido
Mesmo com as negativas, a simples menção da ideia provocou movimento nos ativos. Economistas alinhados ao próprio PT criticam a proposta de Resende e veem a divulgação como ruído desnecessário num momento em que o mercado cobra sinalizações fiscais claras.
Integrantes da equipe econômica se reuniram com Lula no domingo justamente para avaliar a repercussão negativa. O episódio expõe a tensão entre a vontade política de juros menores e a necessidade de credibilidade fiscal.
O que observar daqui para frente
A ansiedade em torno da definição da equipe econômica de um eventual quarto mandato Lula aumenta. O nome do governador do Piauí, Rafael Fonteles, circula com força entre aliados como sinal de continuidade técnica.
Para o empresário e investidor, o recado prático é: o tabelamento está fora do radar oficial agora, mas a pressão por juros mais baixos permanece. Acompanhe três variáveis nas próximas semanas — definição do ministro da Fazenda, envio do projeto de lei orçamentária e a comunicação do Banco Central sobre o ciclo de Selic. São elas que ditarão o prêmio de risco do Brasil no curto prazo.
