Rodrigo Bocardi estreia canal próprio com 12 horas diárias de programação ao vivo e expõe o mecanismo que transformou verbas públicas em receita publicitária. A revelação reacende debate sobre a relação entre emissoras e administrações municipais.
O jornalista não poupou palavras ao descrever o modelo que operou por anos nos bastidores da televisão aberta. A promessa de transparência, no entanto, esconde nuances que todo gestor público e anunciante precisa entender.
O modelo que ninguém explica na tela
Bocardi detalhou como funcionam os contratos de “publicidade institucional” firmados entre prefeituras e veículos de comunicação. Na prática, recursos do orçamento municipal — muitas vezes carimbados para saúde, educação ou infraestrutura — migram para caixas de emissoras sob a justificativa de “divulgação de atos oficiais”.
O ex-âncora do Bom Dia São Paulo afirmou ter participado diretamente de negociações onde o valor do contrato superava em até 300% a tabela de mercado praticada para anunciantes privados. A diferença, segundo ele, era absorvida por intermediários e comissões não declaradas.
Doze horas no ar: aposta ou fuga?
A grade do novo canal prevê transmissão ininterrupta das 6h às 18h, com telejornais, entrevistas e blocos de serviço. Não há grade de entretenimento, nem dramaturgia. A estrutura enxuta — equipe de 22 profissionais, estúdios alugados e tecnologia baseada em IP — permite custo operacional estimado em 15% do que uma emissora tradicional gasta para horário semelhante.
Especialistas ouvidos pelo mercado veem dois cenários: consolidação como mídia de nicho para gestores públicos ou tentativa de replicar o modelo antigo sob nova marca. O próprio Bocardi admite que 60% da meta de faturamento do primeiro ano depende de contratos com administrações municipais.
O que mudou depois do caso SBT
A polêmica envolvendo a emissora de Silvio Santos, onde contratos semelhantes geraram investigação do Ministério Público em 2024, forçou alterações na legislação de mídia. A nova resolução do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) exige:
- Publicação de editais para contratos acima de R$ 50 mil
- Comprovação de veiculação com relatórios de audiência auditados
- Vedação a cláusulas de exclusividade com única emissora
Na prática, as regras tornaram o modelo mais transparente — mas não impediram que prefeituras continuem concentrando verbas em poucos veículos, agora por “livre concorrência” com critérios subjetivos de “alcance local”.
O impacto para quem anuncia e quem fiscaliza
Para o empresário que compra mídia, o cenário exige atenção redobrada. Planos de mídia que incluem “parcerias institucionais” podem mascarar compra de espaço sem concorrência real. Já para controladores internos e tribunais de contas, o rastro documental tornou-se mais complexo: contratos são lícitos, valores são de mercado, mas a destinação do recurso muitas vezes desvia da finalidade pública original.
Bocardi promete divulgar, em seu canal, a lista de prefeituras contratantes e valores mensais. A iniciativa, se cumprida, seria inédita no Brasil — e pressionaria concorrentes a adotarem a mesma prática.
O que observar nos próximos meses
Três variáveis definirão se o modelo se sustenta ou replica vícios do passado: adesão de prefeituras médias (50 a 200 mil habitantes) que dependem de visibilidade regional; fiscalização ativa de MPs estaduais sobre contratos sem licitação; e a capacidade do canal de atrair anunciantes privados sem depender do dinheiro público. O primeiro balanço trimestral, prometido para fevereiro de 2027, será o teste real.
