Flávio Bolsonaro deixou o Brasil rumo aos EUA enquanto a Polícia Federal pedia a apreensão do seu passaporte ao STF. A operação expôs falhas graves na cobertura jornalística e revelou uma estratégia deliberada de desinformação que ainda ecoa nos bastidores do poder.
O cronograma da confusão
Tudo começou à 1h da madrugada de 27 de dezembro, quando o site argentino Infobae noticiou a decolagem de um jato particular de Porto Iguaçu às 2h. Horas depois, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho, negava a saída do país. Um piloto confirmava à Folha o nome na lista de passageiros. Aliados afirmavam a fuga para a Flórida.
Às 1h02 do dia 28, a Folha publicava que Flávio “estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA”, citando o canal C5N. Às 2h06, o mesmo veículo cravava o desembarque nos EUA, atribuindo ao Financial Times. O pouso em Miami ocorreu às 10h23, com fotos e vídeos comprovando: o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW era o mesmo do alerta inicial.
Onde o jornalismo falhou
O vaivém expôs a fragilidade do jornalismo declaratório baseado em fontes “off”. Aliados, “entorno”, “pessoas próximas” — coletivos anônimos usados para plantar narrativas. A responsabilidade editorial recai sobre quem publica, não sobre quem sussurra.
O Globo revelou que Eduardo Bolsonaro teria capitaneado mentiras para auxiliar a fuga do irmão. O ex-PM André Porciuncula, citado como fonte de que o senador já estaria em voo para Miami, aparecera dias antes em reportagem sobre o suposto Ministério da Cultura de Mário Frias.
O vácuo institucional que permitiu a partida
Além da confusão midiática, restam perguntas sobre PF e STF:
- PF apontou “risco concreto” de fuga ao pedir a apreensão do passaporte a Moraes
- A mesma PF afirmou depois que “restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido”
- A decisão sobre o passaporte correu em sigilo, revelada pelo próprio senador em vídeo no dia 26
A estratégia do “inunde a zona”
Quando o desembarque poderia arrefecer o noticiário, veio a carta — trapalhona na forma, golpista no fundo. O episódio ilustra a tática de Steve Bannon: “O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno.”
Bang, bang, bang. Três narrativas por dia. A imprensa morde uma; as outras avançam.
O que observar daqui para frente
O governador Tarcísio de Freitas, presente na apuração, disse-se surpreso com a fuga. Em entrevista posterior, afirmou ter aconselhado Flávio a não sair — mas manteve a negativa de conhecimento prévio do plano. A contradição permanece.
Para empresários e investidores, o sinal é claro: a instabilidade institucional e a guerra de narrativas não arrefeceram. Monitorar decisões do STF sobre passaportes e foro privilegiado, além da atuação da PF em investigações sensíveis, virou variável de risco para cenários de 2024. Quem lê apenas manchetes perde o fio da meada; quem acompanha os movimentos nos bastidores antecipa os próximos lances.
