O mercado de medicamentos de alto custo no Brasil está trocando de dono — e de endereço. A 4BIO, agora sob o controle do Grupo Profarma, acaba de anunciar uma guinada radical: sair do balcão da farmácia para entrar de vez no corredor do hospital. O que está em jogo é uma fatia de R$ 60 bilhões que poucos distribuidores conseguem acessar sozinhos.
Por que o paciente deixou de ser o pagador
A mudança não é apenas geográfica; é financeira. Segundo o vice-presidente Vilson Schvartzman, hoje é raro um tratamento de alto custo sair do bolso do consumidor. Planos de saúde e o governo assumiram essa conta, forçando a indústria a redesenhar a logística.
Nasce aí a “venda triangular”: a operadora paga, a 4BIO entrega na casa do beneficiário. Os dois centros atuais (Pernambuco e São Paulo) mantêm esse modelo B2P, onde a empresa já detém 25% a 28% de participação. Mas o crescimento real, admite o executivo, está no B2B puro.
A matemática da oncologia e o salto logístico
O motor dessa expansão tem nome: oncologia. O segmento cresce entre 12% e 15% ao ano — mais que o dobro do varejo farmacêutico tradicional (6% a 7%). Para se ter uma ideia, 45% dos lançamentos previstos para os próximos cinco anos são oncológicos.
Para dar vazão a essa demanda, a rede logística saltará de dois para sete centros de distribuição até dezembro. Cinco novas unidades entram em operação:
- Rio de Janeiro (já inaugurado);
- Espírito Santo;
- Rio Grande do Sul;
- Distrito Federal;
- Segundo centro em São Paulo.
Cada unidade tem entre 1.500 e 2.000 m², estoque de 500 itens e foco exclusivo em hospitais, clínicas e operadoras. O aporte total é de R$ 20 milhões, recursos do caixa do Grupo Profarma — que adquiriu a 4BIO da RD (Raia Drogasil) por R$ 600 milhões.
Doenças raras e vacinas: as novas frentes de receita
A aposta não para na oncologia. A empresa mira doenças raras, nicho em que atua pouco hoje, mas onde terapias chegam a custar R$ 4 milhões por ano por paciente. Paralelamente, o calendário vacinal saiu do universo infantil: imunizantes para adultos agora circulam em laboratórios e farmácias, não só em clínicas.
Schvartzman aponta ainda a medicina preventiva como vetor de longo prazo. A estratégia, porém, descarta aquisições no curto prazo: a meta é crescer organicamente e dobrar a fatia de mercado.
O que observar daqui para frente
A integração dos novos centros ao modelo triangular será o termômetro de execução. Se a 4BIO conseguir manter a capilaridade do B2P enquanto escala o volume hospitalar, ela deixa de ser “braço de especialidades” para se tornar a espinha dorsal da distribuição de alto custo no país. Investidores e gestores de saúde devem monitorar a taxa de ocupação dos novos CDs no primeiro trimestre de operação — é ali que a tese de dobrar de tamanho será validada ou corrigida.
