Cultura

O caça aos cliques que virou fuga: como a mídia foi usada no xadrez de Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro em jato particular com tabuleiro de xadrez e logotipos de veículos de imprensa como peças
A fuga do senador expôs como a mídia foi manipulada em uma estratégia de desinformação calculada

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) deixou o Brasil em um jato particular enquanto a imprensa brasileira publicava, desmentia e republicava versões contraditórias sobre seu paradeiro — tudo em menos de 24 horas. O episódio expôs a fragilidade do jornalismo declaratório diante de uma estratégia deliberada de desinformação. O resultado: veículos de referência viraram peças de um tabuleiro que não controlavam.

A pergunta que fica não é apenas como ele saiu, mas por que a cobertura seguiu o ritmo ditado por fontes anônimas com interesse direto no desfecho. A resposta envolve um manual de guerra política importado dos EUA e a pressa por publicar primeiro.

O cronômetro da confusão

Tudo começou à 1h da madrugada de terça-feira (27), quando o site argentino Infobae cravou: Flávio embarcaria às 2h em Porto Iguaçu rumo aos EUA. A partir dali, o noticiário entrou em loop.

  • Primeiras horas: coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), negou a saída do país.
  • Pouco depois: um piloto confirmou à Folha o nome na lista de passageiros do voo das 2h.
  • Duas horas depois: o mesmo jornal publicou que o senador “já” estaria a caminho dos EUA e que o nome na lista era “um despiste”.
  • 1h02 de quarta (28): manchete de que Flávio “estava escondido na Argentina e acaba de decolar”, atribuída ao canal C5N.
  • 2h06: nova versão — já estaria desembarcando nos EUA, segundo o Financial Times.
  • 10h23: pouso confirmado em Miami. Fotos e vídeos mostraram o Gulfstream G400 matrícula LV-JQW — o mesmo do alerta inicial do Infobae.

Em nove horas, a imprensa brasileira oscilou entre “não saiu”, “está na lista”, “é despiste”, “está na Argentina”, “pousou em Miami”. O único veículo que manteve a versão do começo ao fim foi o argentino que deu a largada.

Jornalismo declaratório: a armadilha do “off”

A cobertura dependeu quase inteiramente de fontes coletivas — “aliados”, “entorno”, “fontes da campanha” — sem verificação independente. O O Globo revelou depois que Eduardo Bolsonaro teria capitaneado a operação de desinformação, usando o ex-PM André Porciuncula como ponte para jornalistas.

Porciuncula, aliás, já havia aparecido em reportagem da Folha como fonte sobre o futuro Ministério da Cultura de Mário Frias. O mesmo personagem, a mesma dinâmica: informações estratégicas vazadas sob anonimato, publicadas como fato.

O problema não é apenas a fonte mentir. A responsabilidade pela publicação é sempre do jornalista. Quando o sigilo da decisão sobre o passaporte — revelada pelo próprio Flávio em vídeo na segunda (26) — se soma a fontes “off” com agenda clara, o jornalismo deixa de apurar e passa a transmitir.

O efeito Bannon e a estratégia do “inundar a zona”

Steve Bannon, ideólogo do trumpismo, resumiu a tática em 2018: “O partido de oposição é a mídia. A mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma”.

A fuga e a carta posterior — com erros, recuos e a justificativa do “ChatGPT” — seguem o roteiro. Enquanto a imprensa corria atrás de cada versão, o assunto dominou a semana da vitória de Lula (PT). O desembarque em Miami não arrefeceu a cobertura; a carta manteve o nome no centro do noticiário.

O que sobrou para as instituições

Além do desgaste da imprensa, restam perguntas sobre PF e STF. A polícia pediu a apreensão do passaporte alegando risco concreto de fuga. O ministro Alexandre de Moraes autorizou. Ainda assim, o senador embarcou.

A PF divulgou nota posterior afirmando que “restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido”. A contradição entre o pedido de apreensão e a saída efetiva não foi esclarecida. O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), aliado de primeira hora, disse ter aconselhado Flávio a não sair — mas negou saber do plano.

O que observar daqui para frente

Três pontos merecem atenção nos próximos dias:

  • Se haverá consequências processuais para a saída do país com passaporte alvo de medida judicial.
  • Como veículos de imprensa vão rever protocolos de checagem para fontes “off” de campanhas políticas.
  • Se a estratégia de “inundar a zona” será replicada em outros episódios — e se a mídia terá ferramentas para não ser jogada de novo.

O episódio não foi um acidente de percurso. Foi um teste de estresse do ecossistema informativo brasileiro. A nota final não cabe ao senador, nem às fontes anônimas, nem aos veículos estrangeiros que acertaram. Cabe a cada redação decidir se o ritmo da publicação vale o custo da credibilidade.