O Supremo Tribunal Federal (STF) agendou para a próxima terça-feira uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que baniu as apostas online no país, mas a composição da mesa expõe um viés estrutural: das 28 entidades convidadas, zero representa a saúde pública, a defesa do consumidor ou a infância. O palco está montado para quem fatura com o jogo; a conta, como sempre, cai no colo de quem não tem voz.
O clube dos beneficiados: quem tem assento à mesa
A lista de expositores lê-se como um “quem é quem” do ecossistema que lucra com as bets. Estão lá dez clubes da Série A, duas entidades esportivas, cinco associações do próprio setor de apostas e quatro grupos empresariais e de radiodifusão que veiculavam a publicidade.
Fora do rol, nenhuma voz da Fiocruz, do Idec, da CNBB ou de conselhos tutelares. A Advocacia-Geral da União (AGU) chegou a pedir a ampliação do debate para incluir o Dieese e o Instituto de Defesa do Consumidor, mas a expansão aceita até agora limitou-se ao Comitê Olímpico do Brasil e ao Ministério do Esporte.
A conta real: R$ 37 bi perdidos contra R$ 1 bi de patrocínio
O argumento econômico costuma ser o escudo do setor. Os números, porém, contam outra história quando colocados lado a lado:
- Patrocínio aos clubes (2025): cerca de R$ 1 bilhão (7% da receita da Série A).
- Prejuízo dos apostadores (2025): R$ 37 bilhões.
- Participação dos clubes no bolo: menos de 3% do que as famílias deixaram nas plataformas.
Ou seja: a receita que sustenta o futebol de elite é uma fração ínfima do valor drenado do orçamento doméstico, majoritariamente das classes C, D e E.
O que a pesquisa “Mulheres & Bets” expôs sobre a economia doméstica
Realizada pela CLARICE em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, a pesquisa ouviu mais de 2 mil mulheres e fez 60 entrevistas em profundidade nas classes populares. O retrato que emerge foge completamente da narrativa de “entretenimento”:
- 4 em cada 10 brasileiras já apostaram.
- A motivação principal não era enriquecer, mas fechar a conta do mês: luz, material escolar, festa do filho.
- Quando o dinheiro acabava, a fome entrava em casa: “Às vezes não tem um grão de comida porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia.
- O efeito ricochete: 14% das conviventes deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e quebra de confiança e 23% da população conhece casos de violência familiar ligada ao jogo.
- 65% das que quiseram parar não buscaram ajuda por vergonha.
A virada de opinião e o custo invisível no SUS
Os dados mudaram o termômetro social. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição (contra 50% dos homens). Em outubro, com a MP em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio total, alta de 13 pontos em relação a novembro de 2024. A pauta migrou da editoria de Economia para a de Saúde e Direitos Humanos.
Sobre a arrecadação tributária: o setor recolheu R$ 6,8 bilhões entre fevereiro e setembro de 2025. Pela lei, 1% da parcela destinada a políticas públicas vai para o Ministério da Saúde — R$ 33 milhões até agosto. O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima o custo anual em saúde associado ao jogo em pelo menos R$ 30,6 bilhões. A conta paga pelo SUS e pelas famílias é quase mil vezes maior que o recurso destinado ao tratamento.
O risco de uma escuta pela metade
Uma audiência pública serve para instruir a decisão do julgador. Quando ela escuta apenas quem perde receita com a proibição, a suspeita é legítima: a serviço de quem atua essa escuta seletiva? Trinta e nove entidades da sociedade civil, incluindo a própria CLARICE, formalizaram pedido ao ministro Luiz Fux por representação equânime. O silêncio sobre a saúde mental, a violência doméstica e a proteção da infância não é uma lacuna técnica; é uma escolha política.
O que observar daqui para frente: o Congresso e a manutenção da MP
A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e, fundamentalmente, com as vítimas sentadas à mesa. Suspender a proibição antes de ouvir as famílias equivaleria a sentenciar primeiro e julgar depois.
Enquanto as instituições decidem se ouvem ou não o outro lado, as mulheres brasileiras já estão agindo: confrontam dívidas, tomam celulares, buscam redes de apoio, vigiam os filhos. Elas sabem o que querem. A terça-feira no STF e os meses seguintes no Legislativo dirão se o Estado está disposto a ouvi-las — ou se a conta continuará sendo paga apenas por quem não tem lobby.
