O Supremo Tribunal Federal marcou para terça-feira uma audiência pública sobre a medida provisória que proibiu apostas online no Brasil. A lista de 28 convidados não inclui nenhuma entidade de saúde, defesa do consumidor ou proteção à infância. Quem vai defender as famílias que pagaram a conta?
O ministro Luiz Fux receberá dez clubes de futebol, duas entidades esportivas, cinco associações do setor de apostas e quatro grupos empresariais e de radiodifusão que veiculavam publicidade das bets. Fora os órgãos de governo, apenas quem faturou com o mercado tem assento à mesa.
O que a pesquisa revelou sobre o impacto real nas casas brasileiras
Em julho, o estúdio CLARICE — em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA — ouviu mais de 2 mil mulheres das classes C, D e E em todo o país, além de 60 entrevistas em profundidade. O retrato que emerge foge completamente das planilhas de arrecadação.
Quatro em cada dez brasileiras já apostaram. A maioria não buscava enriquecimento: jogava para cobrir a conta de luz, o material escolar, o bolo de aniversário do filho. Quando o dinheiro acabava, a falta era sentida dentro de casa. “Às vezes não tem um grão de comida dentro de casa porque a pessoa jogou”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia.
O efeito contágio atinge até quem não joga. Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas, uma em cada quatro relata brigas e perda de confiança, e 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram situações em que a aposta contribuiu para violência familiar. Entre as que quiseram pedir ajuda e não pediram, 65% citaram vergonha como barreira.
Os números que não entram no balanço dos clubes
O argumento econômico costuma citar os R$ 1 bilhão que os clubes da Série A receberam em patrocínios das bets em 2025 — cerca de 7% de suas receitas. No mesmo período, apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O futebol ficou com menos de 3% do que as famílias deixaram lá.
Outro dado frequente é a arrecadação tributária. Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais, segundo o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). A lei reserva 1% da parcela destinada a políticas públicas ao Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta cerca de R$ 33 milhões.
O mesmo IEPS estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias. Para cada real que chegou à Saúde, o sistema gasta quase mil no tratamento das consequências.
Uma audiência desenhada para qual resultado?
A própria Advocacia-Geral da União reconheceu o desequilíbrio e pediu a inclusão de organizações como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove entidades da sociedade civil, incluindo a CLARICE, escreveram ao ministro Fux solicitando representação equânime. Até o momento, a lista foi ampliada apenas uma vez — para adicionar o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.
Uma audiência pública serve para instruir uma decisão. Quando ela escuta apenas quem perde receita com a proibição, a pergunta inevitável surge: a serviço de quem ela está operando? Uma escuta parcial interessa a quem prefere que essa conta permaneça invisível.
O que observar nos próximos capítulos
A medida provisória segue para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo e dados completos. Até lá, a proibição precisa ser mantida. Suspendê-la antes de ouvir as famílias seria decidir primeiro e escutar depois — exatamente o inverso do devido processo.
As mulheres brasileiras já estão agindo. Nas entrevistas, elas contaram que confrontam, negociam dívidas, tomam o celular de quem joga, buscam apoio na igreja, vigiam a porta do quarto dos filhos. Quando perguntadas, dizem com clareza o que querem. A terça-feira no STF mostrará se as instituições estão dispostas a ouvi-las com o mesmo peso que dão aos balanços dos clubes e às projeções das operadoras.
Para o investidor e o gestor atento: o risco regulatório no setor de apostas não vem apenas de canetadas judiciais. Ele nasce do descompasso entre a narrativa econômica e o custo social mensurável. Quem precifica ativos expostos a esse mercado precisa incorporar, nos modelos, a probabilidade de restrições mais duras — e o custo de reputação de ficar do lado errado da conta.
