Economia

O segredo do boom de proteína nos EUA: Boi a US$ 13, frango recorde e o colapso do plant-based

Carne bovina cara, peito de frango e hambúrguer vegetal murchos representando mudança no consumo de proteína nos EUA
O boom de proteína nos EUA eleva frango a recorde, torna boi artigo de luxo e derruba plant-based.

A demanda por proteína nos Estados Unidos explodiu e redesenhou completamente o mapa do consumo animal, deixando a carne bovina em patamar de luxo e afundando as alternativas vegetais. O movimento é turbinado por novas diretrizes de saúde e pelo uso massivo de medicamentos GLP-1, que exigem alta ingestão proteica para preservar músculo.

Mas nem toda proteína cresce igual. Enquanto o frango atinge números históricos, a carne suína estagna há quatro décadas e o peru registra o menor consumo desde os anos 80. Entenda o que está por trás dessa rotação de pratos — e por que o bolso do consumidor sente o peso.

O boi virou artigo de luxo (e o rebanho não acompanha)

O rebanho bovino dos EUA encolheu ao menor nível em décadas. Resultado: o quilo do bife premium beira US$ 13 (cerca de R$ 65), e a carne moída passa de US$ 7. No varejo, os cortes nobres subiram 3,5% no último ano e acumulam alta de 16,6% em dois anos.

Mesmo assim, a projeção aponta para 27 kg por habitante em 2024, acima do piso de 25 kg de 2014. Segundo Glynn Tonsor, economista da Universidade Estadual do Kansas, o consumidor de alta renda “nunca teve tanta disposição para pagar pela qualidade”. A ponte para o próximo capítulo? A proteína que roubou a coroa do volume.

Frango: a máquina imbatível de 49 kg per capita

Se o boi é o item de desejo, o frango é o item de sobrevivência. A ave mais barata do mercado — inteiro a US$ 2 a libra, sem osso a US$ 4 — deve fechar o ano com consumo médio de 49 kg por americano. Nos anos 90, bovino e frango empatavam em 29 kg; hoje, a ave leva de goleada.

A vantagem estrutural é biológica: um frango de corte atinge peso de abate em sete semanas. O gado leva quase dois anos. Isso permite ajustar oferta quase em tempo real, blindando preços contra choques — exceto, claro, um novo surto de gripe aviária.

  • Frango inteiro: US$ 2/lb (R$ 10/kg)
  • Cortes sem osso: US$ 4/lb (R$ 20/kg)
  • Projeção 2024: 108 lbs (49 kg) per capita

Ovos e suínos: estabilidade enganosa

O americano come, em média, 270 ovos por ano — número que mal se mexe. O preço da dúzia caiu para US$ 2,25 após o pico de US$ 6,25 em maio de 2024, graças à rápida reposição de plantéis (galinhas botam aos 16 semanas).

Já a carne suína vive um paradoxo: a costela custa um terço do bife, mas o consumo trava em 22,7 kg anuais há 40 anos. O preço no varejo estacionou entre US$ 3,50 e US$ 3,75 a libra nos últimos cinco anos. Curiosamente, o USDA aponta que vendas de bacon caem quando a gasolina sobe — é “complemento de viagens e restaurantes”, não item de despensa.

Pescado importado e peru de festa

O consumo de peixes e frutos do mar quase dobrou desde os anos 60, chegando a 9 kg per capita em 2023. O detalhe crítico: 80% vem de fora. Tarifas e logística fazem o preço subir 6,9% em 12 meses, vulnerabilidade que o boi e o frango (produzidos internamente) não têm.

O peru, por sua vez, virou “proteína de data comemorativa”. 45 milhões de aves no Thanksgiving, mas o consumo total despencou para 6 kg anuais — menor nível desde 1986. O preço do peru inteiro congelado no atacado saltou 29% no último ano.

O tombo das proteínas vegetais: Beyond Meat vale 1% do IPO

Apesar do hype, o americano come menos de 1 kg de soja direta por ano (contra 11 kg de óleo de soja). Empresas como Beyond Meat e Impossible Foods encolhem: a primeira vale hoje US$ 125 milhões — contra US$ 13 bilhões no IPO de 2017. No trimestre encerrado em junho, a receita caiu 8,2% e o volume, 9,5%.

A indústria descobriu que “imitar carne” não basta; o consumidor que quer proteína animal paga por carne animal, e o que quer vegetal prefere grãos in natura.

O que observar daqui para frente

Três variáveis ditam o próximo ciclo: a reconstrução do rebanho bovino (que pode levar anos), a evolução dos preços de grãos (milho e soja) que alimentam frangos e suínos, e a regulação de GLP-1 — se planos de saúde ampliarem cobertura, a pressão por proteína animal de qualidade só aumenta. Para investidores, o sinal está na margem: quem tem ciclo curto e produção doméstica (frango, ovos) dorme mais tranquilo do que quem depende de pasto, importação ou modismo.