Uma fábrica no Centro-Oeste de Minas transforma lodo de esgoto, madeira e esterco em fertilizante orgânico, movimentando uma economia circular que já produz 15 mil toneladas por ano. Mas será que o adubo realmente substitui o convencional e corta custos pela metade?
O processo que acelera a natureza
Em Marilândia, distrito de Itapecerica, resíduos de serrarias, podas urbanas, granjas e estações de tratamento são misturados e inoculados com microrganismos multiplicados on farm — ou seja, dentro da própria fazenda. O material forma leiras (fileiras uniformes) onde temperatura e umidade são controladas por 60 a 120 dias até a peneiração final.
O engenheiro florestal Renato Gatti comanda a operação desde 2020. A tecnologia dispensa aterros e devolve ao solo matéria orgânica estabilizada, rica em nutrientes de liberação gradual.
Por que o produtor quer 100% orgânico em cinco anos
Álvaro Franccino cultiva soja, milho e feijão em 500 hectares no distrito de Cláudio. Há dois anos ele dividiu a adubação: metade convencional, metade orgânica. A meta é eliminar a compra externa em cinco anos, produzindo o próprio insumo na propriedade.
O incentivo é financeiro: a expectativa é reduzir 50% do custo total com fertilizantes. Para o empresário do agronegócio, a conta fecha quando se considera logística, volatilidade do dólar e ganho de estrutura do solo.
- Produção atual da fábrica: 15.000 t/ano
- Ciclo de compostagem: 60 a 120 dias
- Meta de economia no custo de adubação: 50%
- Prazo para autossuficiência na fazenda modelo: 5 anos
O elo perdido da economia circular
Resíduos que antes oneravam indústrias alimentícias e granjas — destinados a aterros — agora alimentam lavouras de grãos que, por sua vez, voltam como ração animal. O ciclo fecha na prática o discurso ESG, gerando receita para o transformador e economia para o agricultor.
Mas o efeito mais relevante aparece na resiliência do solo: matéria orgânica eleva capacidade de retenção de água e atividade biológica, reduzindo risco climático.
O que observar daqui para frente
A expansão depende de dois vetores: marco regulatório para bioinsumos e disseminação da tecnologia on farm entre médios produtores. Se a curva de adoção mantiver o ritmo, o Centro-Oeste mineiro pode se tornar referência nacional em fertilidade de baixo carbono — e o bolso do agricultor sentirá o alívio já na próxima safra.
