Justiça

STF ouve só quem lucrou com bets e ignora famílias; veja os números

Ministros do STF em audiência pública sobre apostas online com cadeiras vazias representando sociedade civil excluída
STF realiza audiência sobre bets ouvindo apenas beneficiários do mercado, sem representantes de saúde ou consumidores

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza na terça-feira (3) uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu apostas online, mas a composição da mesa expõe um desequilíbrio gritante: das 28 entidades convidadas, nenhuma representa a saúde pública, a defesa do consumidor ou a proteção à infância. A lista privilegia exclusivamente quem faturou com o mercado — clubes, operadoras e veículos de comunicação — deixando de fora quem arcou com o prejuízo.

A lista que deixa o lado mais fraco de fora

Foram chamados dez clubes da Série A, duas entidades esportivas, cinco associações do setor de apostas e quatro grupos empresariais e de radiodifusão que veiculavam a publicidade. Órgãos do governo completam a relação. A Advocacia-Geral da União (AGU) chegou a reconhecer o viés e pediu a inclusão de vozes como Idec, Dieese e CNBB. Trinta e nove organizações da sociedade civil reforçaram o pedido ao ministro Luiz Fux. Até o momento, a única ampliação aceita adicionou o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte — ainda no campo esportivo.

Uma audiência pública serve para instruir uma decisão judicial. Quando ela escuta apenas quem perde receita com a proibição, a pergunta inevitável surge: a serviço de quem está sendo feito esse debate?

A conta que não fecha: R$ 1 bi para clubes, R$ 37 bi das famílias

O argumento econômico costuma ser o primeiro escudo do setor. Os números, porém, contam outra história se olharmos para o todo:

  • Clubes da Série A: receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios em 2025 (7% de suas receitas).
  • Apostadores: perderam R$ 37 bilhões nas plataformas no mesmo período.
  • Proporção: o que entrou no futebol equivale a menos de 3% do que saiu do bolso das famílias.

Ou seja, a sustentação financeira do esporte profissional custou um valor 33 vezes maior à população apostadora.

O que a pesquisa revelou sobre a rotina das casas brasileiras

Enquanto o debate girava em torno de arrecadação e patrocínio, o estudo “Mulheres & Bets”, conduzido pela CLARICE com Instituto IDEIA e Estratégia Latina, ouviu mais de 2 mil mulheres das classes C, D e E. O retrato que emerge vai muito além da economia:

  • 4 em cada 10 brasileiras já apostaram;
  • A maioria jogava para completar a renda: conta de luz, material escolar, festa do filho;
  • Quando perdiam, o dinheiro faltava na mesa de casa — “às vezes não tem um grão de comida”, relatou uma entrevistada de 24 anos na Bahia;
  • Entre mulheres que convivem com apostadores: 14% deixaram de pagar contas, 25% relatam brigas e perda de confiança e 23% dos brasileiros conhecem casos de violência familiar ligada ao jogo;
  • 65% das que quiseram ajuda para parar não buscaram por vergonha.

Esses dados mudaram a opinião pública. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição (contra 50% dos homens). Em outubro, com a MP em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio total — alta de 13 pontos em menos de um ano. A pauta saiu do caderno de economia e virou questão de saúde mental e proteção familiar.

Para onde o dinheiro dos impostos realmente vai

A arrecadação tributária é outro pilar da defesa das bets. Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor recolheu R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais, segundo o IEPS. A lei reserva 1% da parcela de políticas públicas ao Ministério da Saúde. Até agosto, haviam chegado à pasta cerca de R$ 33 milhões.

Enquanto isso, o mesmo instituto estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. A conta é paga pelo SUS e pelas famílias. A receita cobre menos de 0,1% do custo estimado.

O que observar no Congresso nas próximas semanas

A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as vozes à mesa. Suspender a proibição antes de ouvir as famílias equivaleria a decidir primeiro e escutar depois — o inverso do devido processo democrático.

Nas entrevistas, as mulheres relataram ações concretas: confrontam parceiros, negociam dívidas, retiram celulares, buscam apoio na igreja, vigiam portas de quartos. Elas já sabem o que querem. A terça-feira no STF e os meses seguintes no Legislativo mostrarão se as instituições estão dispostas a ouvi-las com o mesmo peso dado aos balanços financeiros. O custo de ignorar esse lado da equação, como mostram os números, já está sendo pago — e não é pelos clubes.