Justiça

Você não vai acreditar: 28 entidades na audiência das bets e zero de saúde pública

Plenário do STF em audiência pública sobre regulação de apostas online com 28 entidades convidadas
Audiência no STF discute medida provisória das bets sem representação de saúde pública ou defesa do consumidor.

O Supremo Tribunal Federal (STF) realiza na terça-feira, 3 de novembro, uma audiência pública decisiva sobre a medida provisória que proibiu as apostas online no Brasil. Das 28 entidades convidadas a falar, nenhuma representa a saúde pública, a defesa do consumidor ou a proteção da infância. A lista é dominada por quem fatura com o setor: dez clubes de futebol, cinco associações de apostas e quatro grupos empresariais de radiodifusão.

Quem tem voz na mesa do STF?

A composição expõe um desequilíbrio gritante. Clubes da Série A receberam cerca de R$ 1 bilhão em patrocínios das bets em 2025, o equivalente a 7% de suas receitas totais. No mesmo período, os apostadores perderam R$ 37 bilhões nas plataformas. O que o futebol arrecadou corresponde a menos de 3% do que as famílias deixaram nos sites.

A Advocacia-Geral da União (AGU) reconheceu o viés e pediu a ampliação do rol de participantes. Trinta e nove organizações da sociedade civil, entre elas a CLARICE, assinaram pedido ao ministro Luiz Fux por representação equânime. Até o momento, a lista só foi expandida para incluir o Comitê Olímpico do Brasil e o Ministério do Esporte.

O impacto que não aparece nos balanços

Uma pesquisa nacional realizada em julho pela CLARICE, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto IDEIA, ouviu mais de 2 mil mulheres das classes C, D e E. Os dados revelam que a aposta não fica restrita ao celular de quem joga; ela entra na casa e reorganiza o orçamento familiar.

  • 4 em cada 10 brasileiras já apostaram online.
  • A maioria joga para complementar a renda: conta de luz, material escolar, festa do filho.
  • Entre mulheres que convivem com apostadores, 14% deixaram de pagar contas e 1 em cada 4 relata brigas e perda de confiança.
  • 23% dos brasileiros conhecem ou presenciaram situações em que a aposta contribuiu para violência familiar.
  • Das que quiseram parar e não buscaram ajuda, 65% citaram vergonha como barreira.

Esses números mudaram o debate público. Em julho, 62% das mulheres apoiavam a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. Em outubro, com a MP em vigor, o Datafolha registrou 78% de apoio à proibição em todo o país — alta de 13 pontos percentuais em relação a novembro de 2024.

A conta que o SUS paga e as famílias sentem

O argumento fiscal também precisa ser lido por inteiro. Entre fevereiro e setembro de 2025, o setor arrecadou R$ 6,8 bilhões em tributos e destinações federais. Pela lei, 1% da parcela destinada a políticas públicas vai para o Ministério da Saúde: cerca de R$ 33 milhões até agosto.

Em contrapartida, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) estima em pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano os custos de saúde associados a jogos e apostas. Essa fatura é paga pelo SUS e pelas próprias famílias, enquanto a receita tributária mal cobre a ponta do iceberg.

O que muda se a proibição cair agora

Uma audiência pública serve para instruir uma decisão judicial. Quando ela escuta apenas quem perde receita com a proibição, a pergunta inevitável é: a serviço de quem atua o processo? Suspender a MP antes de ouvir as famílias equivaleria a decidir primeiro e escutar depois — justamente o inverso do devido processo democrático.

A medida provisória segue agora para o Congresso Nacional, onde o debate deve ocorrer com tempo, dados e todas as perspectivas à mesa. Até lá, a manutenção da proibição funciona como um freio necessário para que a regulamentação não atropele a proteção social.

O que observar nas próximas semanas

Três frentes merecem atenção de investidores, gestores e formuladores de política:

  • Tramitação no Congresso: prazos de validade da MP, emendas apresentadas e posicionamento das bancadas temáticas (esporte, saúde, economia).
  • Desdobramentos da audiência: se o STF acolherá novos participantes e como o relatório final ponderará os custos sociais versus arrecadação.
  • Impacto no futebol: cenários de substituição de patrocínio, fluxo de caixa dos clubes e eventuais renegociações de contratos vigentes.

O Brasil ganha quando escuta todos os lados. O custo de ouvir apenas um já está sendo pago — e a fatura chega, todo mês, na casa de milhões de famílias.