Economia

Pedidos cancelados em massa: o medo que parou a fábrica de roupas do Agreste

Fábrica de confecções no Agreste pernambucano com tecidos e máquinas industriais
Polo de confecções de Santa Cruz do Capibaribe enfrenta onda de cancelamentos de pedidos pós-eleição.

Fabricantes do maior polo de confecções do Nordeste relatam cancelamentos de pedidos vindos do Sul e Centro-Oeste logo após a reeleição de Lula. O prejuízo já passa de seis dígitos para algumas empresas, e o clima nas fábricas é de cautela. Mas será retaliação política ou apenas receio macroeconômico?

O que aconteceu nas últimas 48 horas

Em Santa Cruz do Capibaribe, no agreste pernambucano, donos de fábricas receberam comunicações de clientes de fora da região anulando encomendas já prontas para embarque. Um empresário, sob anonimato, confirmou 14 cancelamentos que somam 6.000 peças devolvidas ao estoque — uma perda estimada em R$ 120 mil.

Dos pedidos cancelados, 11 vinham de estados do Sul, um do Amazonas e dois de Mato Grosso do Sul. A produção dessa fábrica tem 95% do volume destinado a outras regiões do país.

Outro relato, do advogado e consultor Roniere Gomes, aponta que uma única representação comercial registrou mais de R$ 2 milhões em pedidos anulados entre segunda e terça-feira.

Dois motivos, uma mesma consequência

Segundo apuração feita junto a empresários e representantes do setor, os cancelamentos têm duas justificativas centrais — e elas se misturam.

  • Revolta política: compradores de fora não aceitaram a votação expressiva de Lula no Nordeste e usaram o cancelamento como forma de protesto.
  • Incerteza econômica: medo de aumento de impostos a partir de janeiro e de uma possível desaceleração do consumo.

“Isso é o medo de o comércio não reagir, o mesmo que tiveram os investidores da Bolsa de Valores”, comparou o fabricante ouvido pela reportagem. Ele mesmo afirmou que vai comprar matéria-prima com cautela e reduzir a produção nos próximos meses.

Uma cidade que vive da agulha e do tecido

Santa Cruz do Capibaribe não é apenas mais um município do interior. É o coração de um polo que reúne 14 mil empreendimentos, segundo maior do Brasil em produção de roupas — atrás apenas de São Paulo — e responsável por cerca de 200 mil empregos diretos e indiretos em Pernambuco.

Em 2025, o setor movimentou R$ 18,6 bilhões, alta de 19,2% sobre o ano anterior. A cadeia se irradia por 62 municípios, tendo em Toritama e Caruaru os outros dois polos centrais.

Na eleição presidencial, a cidade foi a única de Pernambuco onde Bolsonaro venceu nos dois turnos: 53,6% contra 46,4% de Lula. O dado é usado por líderes locais para argumentar que eventuais retaliações políticas seriam injustificadas.

O efeito cascata que assusta o comércio local

Roniere Gomes alerta: em Santa Cruz, a economia é monocultural. “Se parar as vendas, tudo para: delivery, salão de beleza, pintor, encanador, escolas, agências de viagens.” Diferente de grandes capitais, não há setores alternativos para absorver o choque.

O Moda Center, principal centro de compras da cidade, chegou a receber 170 mil pessoas em um único dia no ano passado. O fluxo de compradores de fora é o motor que mantém toda a engrenagem girando.

Lideranças apostam na normalização rápida

Antonio Gomes Ribeiro Filho, coordenador da Câmara Setorial dos Representantes Comerciais, admite que houve cancelamentos, mas classifica como pontuais e ligados ao “momento econômico do país”, não a retaliação ideológica.

“Essas empresas buscam clientes, que são os lojistas e atacadistas que trabalham com confecções, calçados e acessórios”, explica. A Câmara oferece assessoria e logística para compradores das cinco regiões brasileiras.

Ribeiro Filho afirma que os representantes já estão fechando o calendário de 2027 com “as melhores expectativas” e que a tendência é de retorno ao patamar normal de vendas nas próximas semanas.

O que observar daqui para frente

Três variáveis vão ditar o ritmo do polo nos próximos meses: a definição da reforma tributária e seus impactos sobre o setor têxtil, a trajetória da taxa Selic e do crédito ao varejo, e a disposição dos compradores de fora em retomar os pedidos suspensos. Enquanto não houver clareza, a palavra de ordem nas fábricas do Agreste é uma só: estoque sob controle, produção comedida e olho no calendário de 2027.