O banco Citi classificou a eventual ida de Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda como o desfecho mais bem-vindo pelo mercado financeiro no próximo mandato presidencial. A avaliação consta em relatório distribuído a clientes nesta quinta-feira (31), assinado pela equipe de estratégia para América Latina.
O vice-presidente já acumula a pasta da Indústria e Comércio, mas seu nome ganhou força nos bastidores como alternativa para comandar a economia a partir de 2027. A leitura do Citi: Alckmin traria previsibilidade e diálogo com o setor produtivo — dois ativos escassos nos últimos anos.
Por que o mercado torce por essa troca
Três pilares sustentam a preferência dos investidores:
- Trajetória conhecida: quatro mandatos como governador de São Paulo, com histórico de ajuste fiscal e privatizações;
- Pontes com o Congresso: articulação política testada na vice-presidência e na relatoria da Reforma Tributária;
- Sinal de continuidade: indicaria que Lula prioriza estabilidade macroeconômica no segundo mandato.
Na visão dos analistas, a simples especulação já funciona como “hedge político” — reduz o prêmio de risco embutido nos ativos brasileiros.
O entrave que ninguém menciona
Alckmin precisaria abrir mão da vice-presidência. A Constituição veda acúmulo de cargo no Executivo com ministério, exceto se licenciado. Isso exigiria uma renúncia formal ou licença temporária, cenário que acionaria a linha sucessória — hoje ocupada pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL).
Além disso, o PT histórico resiste a ceder a Fazenda a um nome de fora da legenda. A ala lulista prefere manter Fernando Haddad ou promover alguém da confiança direta do presidente.
O que os números mostram até agora
Desde que o nome de Alckmin passou a circular com mais intensidade, em meados de outubro, o dólar futuro recuou 1,2% e a curva de juros longa fechou 15 pontos-base. Correlação não é causalidade, mas o movimento coincide com a leitura de “menor ruído fiscal”.
O CDS de 5 anos do Brasil — termômetro do risco soberano — caiu de 198 para 186 pontos no mesmo período.
Cenários alternativos na mesa
O relatório do Citi mapeia outras três possibilidades, por ordem de probabilidade:
- Manutenção de Haddad com autonomia ampliada;
- Nome técnico de carreira, como Bernard Appy ou Marcos Lisboa;
- Político do centrão com perfil fiscalista — hoje, improvável.
Mas o banco alerta: a definição só deve vir após as eleições municipais de 2026, quando o xadrez partidário estiver mais claro.
O que observar daqui pra frente
Três sinais dirão se o “cenário Alckmin” sai do papel: (1) declarações públicas de Lula sobre sucessão na Fazenda; (2) movimentação de Alckmin para fora da articulação política do Palácio do Planalto; (3) reação do PT em convenções estaduais. Quem acompanha o risco Brasil deve monitorar esses gatilhos — eles antecipam a precificação de ativos muito antes do anúncio oficial.
