A estreia de “Dark Horse”, longa-metragem sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, transformou-se em um enigma jurídico-financeiro que paralisa investidores e distribuidores. A investigação da Polícia Federal sobre a origem dos recursos jogou uma névoa densa sobre o futuro do projeto, cujo orçamento oficial supera R$ 75 milhões. O desfecho pode ditar novas regras para o financiamento de cultura no país.
Inicialmente prevista para o primeiro semestre de 2027, a chegada aos cinemas agora compete com a possibilidade de um lançamento direto em streaming — manobra que dispensaria a chancela da Ancine. Mas nem essa rota alternativa está livre de riscos.
O bloqueio que assombra a Europa Filmes
A distribuidora Europa Filmes, responsável pelo lançamento comercial, monitora com lupa a liquidação extrajudicial do Banco Master. O temor central é simples: eventuais receitas de bilheteria ou licenciamento podem ser confiscadas judicialmente para cobrir o buraco deixado pela instituição financeira.
Enquanto a Justiça não delimita o destino dos ativos, o capital de risco necessário para promover o filme permanece retido. Para o mercado exibidor, a insegurança jurídica funciona como um sinal vermelho: ninguém investe em marketing e cópias sem garantia de retorno líquido.
Rastro do dinheiro: do Havengate ao autoexílio
O cerne da investigação reside no fluxo de US$ 12,3 milhões depositados por Antônio Carlos Freixo Junior (conhecido como Mineiro) a pedido de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O destino final era o fundo Havengate, administrado por um advogado próximo a Eduardo Bolsonaro.
Três pontos concentram a atenção dos peritos da PF:
- Destino dos recursos: Se parte financiou a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, configura-se evasão de divisas.
- Orçamento inflado: Laudo próprio da produtora Go Up Entertainment aponta custo de US$ 13,39 milhões, com 72% gastos no exterior — embora as filmagens tenham ocorrido no Brasil.
- “Soft produção” suspeita: US$ 2,68 milhões (20% do total) alocados nessa rubrica; o padrão de mercado gira entre 3% e 5%.
A produtora entregou mais de 20 mil páginas de contratos de câmbio, notas fiscais e recibos. A perícia contábil comparará cada centavo declarado com as entradas reais de capital e a movimentação internacional do Havengate.
Projeção de bilheteria: otimismo irreal?
Um relatório da própria Polícia Federal revelou que o plano de negócios do filme projetava arrecadação de até US$ 100 milhões. Para efeito de comparação, “Minha Mãe é uma Peça 3”, maior bilheteria da história do cinema nacional, rendeu cerca de US$ 30 milhões.
A discrepância levanta dúvidas sobre a viabilidade econômica real do empreendimento ou se as projeções serviam apenas para justificar a captação de volumes atípicos de capital externo.
O que observar daqui para frente
Três variáveis definirão o desfecho nas próximas semanas: a conclusão da perícia contábil da PF, a decisão do STF sobre o inquérito de corrupção e lavagem de dinheiro, e o posicionamento do Congresso sobre a regulamentação do streaming — que hoje opera em zona cinzenta.
Se a Justiça determinar o bloqueio preventivo de receitas, a migração para plataformas digitais deixa de ser estratégia comercial e torna-se única saída para recuperar parte do investimento. Para investidores do setor audiovisual, o caso “Dark Horse” virou case study obrigatório: demonstra como due diligence financeira e compliance político são, hoje, inseparáveis na análise de risco de projetos culturais no Brasil.
