Economia

Juros altos: por que trocar o ministro não resolve nada

Gráfico da taxa Selic em alta com prédio do Ministério da Fazenda em Brasília ao fundo
A trajetória dos juros reais depende da aritmética fiscal, não de quem ocupa o Ministério da Fazenda.

A especulação sobre quem ocupará o Ministério da Fazenda domina os corredores de Brasília, mas o diagnóstico é claro: a troca de nomes não altera a trajetória dos juros reais. Enquanto o crescimento do gasto primário superar a expansão da economia, a taxa Selic permanecerá elevada — independentemente de quem assine as portarias.

A discussão atual foca em pessoas, quando o problema é aritmético. Entender essa dinâmica é o que separa a análise política da realidade do balanço de pagamentos.

A distração da dança das cadeiras

Cotam-se nomes como o do vice-presidente Geraldo Alckmin ou do governador Rafael Fonteles para a pasta. A aposta em “continuidade” com Dario Durigan também circula. Nenhuma dessas alternativas, porém, possui varinha de condão.

O ex-ministro Fernando Haddad teve desempenho técnico reconhecido. Ainda assim, não logrou êxito em convencer a cúpula do governo da necessidade de reformas que equalizem a velocidade do gasto à do PIB. Sem essa convicção no topo da pirâmide, o resultado prático é a manutenção do cenário atual.

A aritmética cruel por trás dos juros reais

Os juros não estão altos por erro do Banco Central. Se a autoridade monetária cortasse a Selic hoje sem lastro fiscal, a inflação dispararia — repetindo o ciclo frustrado de 2011 a 2014. A causa estrutural é outra: o setor público consome recursos a um ritmo que a economia não consegue financiar.

Dois fatos concretos explicam o quadro:

  • Gasto primário real cresce mais que o PIB na quase totalidade dos mandatos petistas;
  • A economia opera no limite da capacidade, sem folga ociosa para absorver a demanda extra.

Dados históricos reforçam o padrão. Excluindo 2003 (queda de 3,9% no gasto com PIB a +1,1%) e 2025 (gasto a +1,9% versus PIB a +2,3%), a média anual de expansão real do gasto primário foi de 7,8%. O PIB médio no mesmo período: 4%. Quase o dobro.

O diagnóstico que a liderança ignora

O nó central reside na interpretação presidencial. Há indícios fortes de que a liderança máxima não estabelece a causalidade entre a expansão contínua da despesa e o custo do dinheiro. Se a causa raiz não é reconhecida, a cura não será prescrita.

Por isso, a identidade do ministro torna-se variável irrelevante para a equação dos juros. A cadeira pode ser ocupada por qualquer quadros técnico; sem o aval para frear a despesa, a política monetária seguirá contracionista.

Receita extra alivia a dívida, mas não derruba o juro real

Aumentar a carga tributária — cortando subsídios e gastos tributários — ajuda na dinâmica da dívida pública e reduz o risco-país. Esse movimento contribui indiretamente para juros menores no longo prazo.

Contudo, para impactar a taxa real de juros de forma direta e imediata, não há atalho: o crescimento da despesa primária precisa convergir para a taxa de crescimento da economia. É uma restrição de oferta e demanda por ativos reais, não apenas nominal.

Cenários: reforma estrutural ou inflação forçada

Dois caminhos se desenham para os próximos trimestres:

  • Cenário base: Manutenção do atual ritmo de gastos. Selic elevada por tempo prolongado, com impacto sobre crédito, investimento e custo de capital das empresas.
  • Cenário de risco: Pressão política para queda forçada da Selic sem ajuste fiscal. Resultado provável: desancoragem das expectativas e retorno da inflação alta, corroendo poder de compra e margens.

A experiência de 2011-2014 serve de alerta histórico: a tentativa de ditar juros abaixo do equilíbrio de mercado sem lastro fiscal terminou em recessão e alta de preços.

O que observar daqui para frente

Para o empresário e o investidor, o sinal a monitorar não é a nomeação no Diário Oficial. O termômetro relevante é a tramitação de propostas que limitem o crescimento real das despesas obrigatórias — seja via nova regra fiscal, reforma administrativa ou revisão de indexadores.

Enquanto o arcabouço legal permitir que o gasto corra à frente do PIB, o custo de capital no Brasil continuará carregando um prêmio de risco endógeno. A bola, de fato, está com a liderança; mas é a caneta que assina a lei orçamentária, não a que nomeia o ministro, que define o jogo.