Meio Ambiente

O segredo por trás da multa de R$ 900 mi no entorno do Parque das Emas…

Fiscalização do Ibama em lavoura de milho transgênico ilegal no entorno do Parque Nacional das Emas
Operação flagra 645 hectares de milho transgênico plantados irregularmente na zona de amortecimento do parque.

O Ibama e o ICMBio autuaram produtores rurais em R$ 890 mil após flagrarem 645 hectares de milho transgênico plantados ilegalmente na zona de amortecimento do Parque Nacional das Emas. A área irregular equivale a 11,4% de toda a faixa de proteção da unidade de conservação. Mas o valor da multa é apenas a ponta do iceberg para quem opera na região.

A operação, realizada entre 13 e 23 de outubro, vistoriou todas as propriedades agrícolas limítrofes ao parque. Nenhum cultivo foi encontrado dentro dos limites da reserva, mas a concentração de transgênicos na borda acende um alerta regulatório que vai muito além do bolso dos autuados.

Por que a zona de amortecimento virou alvo prioritário

A legislação é clara: a Lei 11.460/2007 veda organismos geneticamente modificados (OGMs) em unidades de conservação e terras indígenas, exceto em APAs. O Decreto 5.950/2006 reforça a restrição nas faixas de entorno. O objetivo técnico é evitar a contaminação genética de espécies nativas e o surgimento de superpragas resistentes.

Segundo o órgão ambiental, a presença indevida desses cultivos pode desencadear:

  • Transferência de genes para plantas selvagens nativas;
  • Desenvolvimento de resistência a agrotóxicos em pragas;
  • Danos a insetos não-alvo essenciais ao equilíbrio local.

Três autos de infração foram lavrados. Os nomes dos responsáveis não foram divulgados, impedindo a defesa pública imediata. O silêncio dos autuados, contudo, não paralisa os desdobramentos administrativos e judiciais que virão.

O impacto direto no bolso e na licença para operar

Para o empresário do agronegócio, a multa de quase R$ 1 milhão é um custo operacional alto, mas gerenciável. O risco real reside na suspensão de licenciamentos e no bloqueio de crédito rural. Bancos e tradings exigem conformidade socioambiental (compliance) para liberar linhas de financiamento e contratos de compra.

Uma autuação federal por crime ambiental na zona de amortecimento de um Parque Nacional aciona gatilhos em sistemas de due diligence. Isso pode travar a venda da safra atual e comprometer o planejamento da próxima safra 2024/25.

O que a fiscalização sinaliza para o setor

A ação conjunta Ibama/ICMBio indica uma mudança de postura: a fiscalização deixou de ser reativa (denúncias) para se tornar sistemática (varredura total da borda). O fato de 100% das propriedades no limite terem sido checadas sugere que o Estado mapeou o passivo ambiental da região e passou a cobrar a fatura.

Isso cria um precedente perigoso para quem planta nas bordas de outras UCs federais, como Chapada dos Veadeiros ou Serra da Canastra. A replicabilidade do modelo de fiscalização “cerco total” é alta.

Cenários para os próximos meses

Os autuados têm prazo para apresentar defesa administrativa. Historicamente, a redução de valor é possível, mas a exigência de recuperação da área degradada (PRA) costuma ser mantida. Isso significa custo extra com recomposição de vegetação nativa e monitoramento por anos.

Paralelamente, o Ministério Público Federal pode ingressar com ação civil pública pedindo danos morais coletivos e indenização por danos difusos. Nesses casos, os valores ultrapassam facilmente a esfera administrativa.

O que observar daqui para frente

Se você opera ou investe em áreas de fronteira com unidades de conservação, três movimentos merecem monitoramento imediato: a publicação de instruções normativas estaduais alinhando regras de zona de amortecimento, a inclusão de cláusulas de “compliance ambiental de vizinhança” em contratos de arrendamento e a atualização de laudos de CAR (Cadastro Ambiental Rural) para refletir a realidade do plantio. A multa de R$ 890 mil foi o recado; a adaptação da gestão de risco é a resposta que o mercado espera.